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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

A capela de Notre-Dame du Haut de Le Corbusier é caverna, concha, pedra e cálice.

  

Drawings of the Serapeion in Hadrian’s Villa, Le Corbusier

“At the limit of the realm of consciousness Ronchamp seems to seek with a violence like a burst of engines, the double quality of unique existence and of memory which can be used. Its forms, laden with old images, still find their life in action. And at their climax the cutting prow pierces space like Camus’s image of a remade humanity: ‘a shaft which is inflexible and free.” (Scully 2003, 87)

Vincent Scully no texto “Modern Architecture: Toward a Redefinition of Style” (2003) escreve que a arquitectura que se seguiu à primeira vanguarda modernista é uma arquitectura em que o individuo não é direcionado pelas linhas e pelos planos fluídos mas pela massa e pela solidez de um só volume. Uma arquitectura cujo centro é o ser humano – é antes um corpo e não um simples contentor. A grande preocupação encontra-se no espaço interior, porque se associa com a proteção e com a esperança de transformação e renascimento de cada indivíduo. 

Scully revela que Le Corbusier começou por explorar estes conceitos de interioridade escultural no projeto para o santuário de Maria Madalena em Saint-Baume, em 1948. Le Corbusier tinha como objetivo incorporaro santuário no maciço de Sainte-Baume – onde o espiritual e o lugar se poderiam assim fundir.  Le Corbusier propunha escavar inteiramente a rocha e incluir caminhos inclinados e compartimentos que receberiam a luz do firmamento através de poços e da extremidade dos corredores. 

Já a capela de Notre-Dame du Haut em Ronchamp, que Le Corbusier concebeu em 1950-55, tinha comoobjetivo ser um cálice num lugar elevado que desejava responder à ‘psico-fisiologia da sensação’, de modo a ser puro estímulo e impulso genuíno, e ser aquilo que se sucede antes de formar qualquer imagem mental. Le Corbusier define Ronchamp com ‘uma acústica paisagística que toma os quatro horizontes como testemunha’. 

Scully afirma também, que Ronchamp é desenhada à escala humana, porém está sempre ativa e em constante avanço. O corpo principal da capela expande o seu volume contido, tal como uma concha. Porém a sua força material pressiona as paredes e a cobertura sobre o seu espaço interior. Para Scully, caverna e coluna, vaso e torre transformam-se num só.

Sendo assim, os símbolos que podem ser associados à Capela de Ronchamp são a caverna, a concha, a pedra e o cálice.

caverna é profunda tal como a escuridão absoluta e o silêncio mais intenso. A caverna apresenta um interior labiríntico, onde qualquer pequeno som se projeta até longe. A caverna possibilita a passagem entre este mundo e o outro, entre vida e a morte. A caverna evoca as funções primordiais da mãe Terra – simultaneamente útero e túmulo. Poetas antigos e medievais representavam a entrada para o submundo como sendo um buraco na terra, associado à figura maternal e à ideia de morte, ressurreição, recomeço, iniciação e renascimento. É no fundo mais escuro da caverna que o símbolo da luz se manifesta – as torres de Ronchamp tentam recriar a descoberta da luz no meio da escuridão.

À caverna também se associa a ideia de prisão, de ilusão, de preconceito e de falsas crenças e poucas possibilidades. Psicologicamente, a ideia de caverna está associada à introversão, à incubação, ao regresso, à fonte, ao início e à hibernação. A caverna pode representar ainda um refúgio, mas também o confinamento e a perspetiva arcaica. Um indivíduo à deriva fica desorientado numa caverna, pois o sólido confinamento dá lugar à dúvida esmagadora. (Ronnberg 2010, 112-3)

O símbolo da concha remete para uma interioridade que ressoa e que convida a uma interrupção. Uma concha ouve e fala, absorve e expulsa, dá a ouvir e silencia. Está associada a um submundo, é um tesouro que submerge do fundo do mar. Apresenta formas surpreendentes e torneáveis, que refletem estados de crescimento e de desenvolvimento. As dobras de uma concha apresentam-se em espiral e são labirínticas. E assim se apresenta Ronchamp que também se vai revelando aos poucos. As entradas estão nas dobras e no seu interior as capelas são os espaços mais escondidos e habilmente iluminados. O interior de uma concha parece infinito. A concha protege quem aí habita, mas é na verdade uma peça muito delicada que facilmente se quebra. Ronchamp protege e permite a retirada do mundo exterior, mas ao mesmo tempo pertence àquele lugar. A concha vazia é a imagem da alma que partiu para a imortalidade. 

pedra é símbolo do poder do ser humano sobre a natureza e está associada ao projeto da capela de Ronchamp. Ronchamp ergue-se no cimo de um promontório, imutável, tal como um pedra. Desde cedo estruturas e configurações com pedras albergam o símbolo da vida e da morte. Uma só pedra pode significar um poder divino, um espírito, um lugar de contemplação, mas também um objeto inerte, sem vida, duro, imóvel e frio. Uma pedra apresenta uma natureza densa e impenetrável e tal como Rebis (o ser mitológico hermafrodita frequentemente presente nos textos dos alquimistas) representa a dualidade, a perfeição e os opostos – o masculino e o feminino, a criança e o velho, o princípio e o fim, a ignorância e a sabedoria. A pedra tem a simbologia da resistência associada e a sugestão de eternidade. A pedra está ainda associada à ideia de busca, de procura por aquilo que é mais importante e verdadeiro, o valor que durará para sempre. (Ronnberg 2010, 104-7)

cálice sugere um processo de transfiguração e integração psicológica gradual. É um encontro e uma entrega a um estado superior de existência. (Ronnberg 2010, 786)

E a capela de Ronchamp está assim entre a Terra e o céu. É primitiva e impaciente. O seu interior é uma demonstração arqueológica, a parede maciça perfurada destrói qualquer ideia de solidez, o telhado dobra-se em voo, as portas escondem-se nas sombras e por entre as curvas e as pregas.

Ana Ruepp

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