CARTA À PRIMAVERA
Quando pensas que as palavras surgirão para dizerem o teu significado, entre nós, assumo que já nos conhecemos o suficiente e que espero que faça sentido para ti as minhas mãos trémulas que, de tanta expectativa, nalgum momento não souberam esperar-te deste lado, nesta distância que me impuseste para que assim eu fosse paciente ao teu relógio e, ouvindo o que não careces de me dizer, te recebesse em mim.
Tu, viajante incansável, a quem me curvo para receber as maçãs que já voam felizes todo o dia.
Tu, primavera, que tão bem te fazes sentir, retomas agora a viagem que da última vez em mim deixaste.
Tu, primavera que num relance, fazes acontecer um acordar em bando.
E à noite, à noite, os mendigos também te esperam.
Ensinaste-lhes a tua canção infalível e nela o registo em que nascerão as tuas árvores corajosamente comprometidas com inúmeras fragilidades.
E também já espreitei o teu coração e já vi que ele tem forma de longo pássaro no modo como o senti, e de repente o dia das flores é de uma paz vegetal que me saúda aqui no meu rés-do-chão onde as metamorfoses regressam como sustento.
Depois, depois, um raio de sol cai-me amorosamente sobre os ombros.
Nasce em mim o teu tempo e já dos ninhos se solta a penugem da esperança e os cantos acreditam na vida que tudo garante porque as asas se aguentam.
Então, a manhã rompe e dás o que tens.
Começas a contar a tua nova idade e do que ela é feita e eu te amo e te amo e te amo e recebe esta carta e nela o meu endereço para que conheças o lugar da minha audácia quando te escrevo enquanto evoluo para a luz, para os risos, para a música, enquanto um esquilo corre com uma côdea de pão na boca.
Teresa Bracinha Vieira
Senhora Dr.a T. Vieira,
Que belo texto poético!
Obrigada
Grata pela sensibilidade ao texto.
Boas leituras!