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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Uma cidade feminista é uma cidade mais humanista.

 

“If women’s rights are human rights, it stands to reason that a feminist city is a humanist city. While it’s true that a woman’s body may not be a feminist mind and not every female urbanist shares the same values, it is still the case that women bring with them a set of experiences that differ in meaningful ways from those of many of their male peers. (No less relevant is the fact that women of color bring a whole other set of experiences, distinct from white women.)”, Katrina Johnston-Zimmerman

 

Katrina Johnston-Zimmerman explica em “Women and Cities: Gender Equity” que uma cidade feita por e para as mulheres oferece a possibilidade de ser uma cidade mais humanista, mais igual e mais pacífica; de respeitar todas as identidades de género, todas as capacidades, todas as idades e todas as origens étnicas; de permitir uma partilha mais justa de bens e de recursos comuns; de eliminar hierarquias sociais; de incluir uma abordagem mais ecossistémica dos ambientes urbanos; e de distribuir o poder de modo a evitar que se concentre numa só pessoa.

 

Johnston-Zimmerman revela que desde cedo o desenho da cidade teve como objetivo ordenar e colocar as pessoas e as suas atividades em sítios determinados e estratégicos. Infelizmente, a cidade sempre obedeceu somente a uma organização social em que a autoridade era exercida por homens. E sempre se definiu através de um sistema hierárquico muito bem definido associado ao facto do poder divino ser atribuído a uma minoria social que detinha todo o poder e influência.

 

Johnston-Zimmerman clarifica que por exemplo, as cidades muralhadas preservavam no seu centro o comércio e aí vivia a elite que comandava a cidade. Fora das muralhas ficavam os campos de cultivo e viviam os servos e os escravos da elite. A torre no meio da cidade, tal como um farol ou pináculo, representava as regras que a sociedade ditava e que todos deveriam obedecer.

 

Para Johnston-Zimmerman, as cidades que cumprem planos geométricos muito rígidos forçam um ideal sobre os seus habitantes. São, na verdade, uma tentativa de materializar uma perfeição imaginada por alguém, num determinado momento do passado. A cidade, na opinião de Johnston-Zimmerman, deve ter a capacidade de se modificar, de se alterar e de se questionar constantemente pois é um organismo vivo que deve resultar de entendimentos coletivos.

 

Na opinião desta antropóloga, é muito raro encontrar uma cidade que tenha inteiramente integrado, num contexto alargado, o meio ambiente. E essa separação entre a natureza e o espaço construído é igualmente responsável por muitos problemas que hoje existem. Johnston-Zimmerman esclarece que as cidades orgânicas ou não lineares visionadas por alguns urbanistas não conseguiram contribuir para a construção de uma cidade mais integral, capaz de se adaptar à vida dos seus habitantes.

 

Johnston-Zimmerman torna inteligível que no séc. XIX e no séc. XX houve um grande desenvolvimento de ideias urbanas que tentaram responder ao advento da industrialização, do capitalismo e da globalização. Le Corbusier, por exemplo no início do século passado, desenvolveu o desenho, totalmente novo, da cidade-torre radiante que ansiava alterar a ordem existente e tornar a sociedade mais eficiente – não no sentido, de dialogar mais proximamente com o contexto, com o lugar ou com a natureza – mas sim, no sentido de transformar a cidade num projeto de engenharia, tal como uma máquina. Uma cidade-máquina que deveria operar com mais eficácia e perspicácia em relação ao comportamento humano. Johnston-Zimmerman revela que Le Corbusier atuava sobre as suas maquetes urbanas com uma mão vinda dos céus – de modo a arrumar e dispor os edifícios e a vida das pessoas, tal como um Deus. Le Corbursier desejava, através dos seus ideais de forma e de zonificação, ditar como, quando e onde as pessoas se movimentariam pela cidade. Johnston-Zimmerman alerta para o facto de que se as ideias de Le Corbusier tivessem sido concretizadas na sua totalidade teríamos assistido a demolições massivas dos centros históricos de muitas cidades. Le Corbusier ao criar uma cidade tão rígida e racional eliminava qualquer possibilidade de controlo e de pertença sobre o lugar – seria uma cidade sem alma onde não haveria qualquer abertura para a co-criação, modificação, alteração, apropriação e interpretação. Na verdade, em algumas cidades dos Estados Unidos, ao serem adotados modelos de arranha-céus para escritórios e também para a habitação, eliminou-se a estrutura social on the ground que é essencial para estabelecer contacto entre as pessoas e criar uma relação estreita com o espaço público.

 

Johnston-Zimmerman refere igualmente Broadacre City de Frank Lloyd Wright (1934-58) e que partilha de alguns pontos em comum com a cidade de Le Corbusier – ainda existe uma torre que comanda, controla e vigia. Porém, Frank Lloyd Wright tentou integrar a cidade num ecossistema mais abrangente e tomou em consideração o ambiente circundante mais vasto. Em Broadacre City não existe um centro. A cidade e o campo misturam-se. A cidade está em todo o lado e em lado nenhum: “A América não precisa de nenhuma ajuda para construir Broadacre City. Ela irá construir-se a si mesma, ao sabor do acaso.” (Frank Lloyd Wright In Frampton 2000, 230)

 

Wright considerava a máquina e a casa como sendo os elementos fundamentais para a construção da cidade do futuro. O avião, o automóvel, o rádio, o telégrafo, a eletricidade e os bens de consumo mecanizados eram os agentes geradores de um movimento ilimitado. Cada família receberia um terreno com um acre (cerca de 0,40 hectares) e a casa isolada, mínima, confortável e de planta aberta provinha do modelo da cultura Usoniana (termo usado por Frank lloyd Wright em referência aos Estados Unidos da América). Como se verificou mais tarde, Broadacre City seria a apoteose da cultura suburbana que se constituiu nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.

 

Johnston-Zimmerman considera que estes arquitetos influenciaram toda a maneira de pensar e planear as cidades até aos dias de hoje. Johnston-Zimmerman explica que estas cidades do futuro, pensadas por arquitetos obedecem a sistemas patriarcais que dão primazia a certos elementos e que estão, em grande medida, na origem do detrimento das cidades contemporâneas. Esses elementos estão relacionados com: as inovações hightech e a ideia da cidade inteligente; o grande ênfase no eternamente novo que é sempre mais desejável independentemente do seu impacto ou consequência; a construção de arranha-céus e na importância da elevada densidade habitacional; o desenho urbano controlado a partir de hierarquias muito rígidas (sendo o fator económico o mais determinante de todos os elementos); a continuada importância dada ao transporte individual; os espaços verdes maioritariamente cénicos, circunscritos, condicionados, homogéneos, muito desenhados e que não promovem a biodiversidade.

 

Para Johnston-Zimmerman, a cidade ideal tem acima de tudo ter em conta a experiência humana, o movimento das pessoas, o seu dia a dia, o seu local de trabalho e de lazer e a sua casa. De modo a conservar uma vida urbana mais completa, Johnston-Zimmerman enumera três elementos necessários para a construção da cidade feminista, e por isso mais humanista, do futuro:

· Uma cidade co-criada, onde a construção e o planeamento devem responder aos grupos de poder abrangente e local;

· Uma cidade comunitária, de maneira a criar um sistema colaborativo mais relacionado com um espaço para habitar;

· Uma cidade compassiva, de forma a permitir que o espaço esteja atento e cuidado a todas as pessoas, sem excepção, que fazem parte da cidade.

 

Sendo assim, Johnston-Zimmerman explica que, mais do que uma cidade inovadora e mais tecnológica, é necessário construir uma cidade que resolva os problemas reais e da pequena escala das pessoas e só assim será uma cidade mais feminista e mais humanista – uma cidade inclusiva, orgânica, igualitária, pacífica, sem hierarquias, sustentável, diversa e sem um poder dominante.

 

Ana Ruepp

 

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