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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS

  

De 13 a 19 de abril de 2026


Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foi um dos filósofos mais influentes do século XX, frequentemente associado ao positivismo lógico, ao pragmatismo e à filosofia analítica. «Conferência sobre Ética» (publicado pela Fundação Gulbenkian, 2017) é um texto importante, onde o pensador expõe as linhas fundamentais das suas ideias.


Ludwig Wittgenstein / DR

Nascido em Viena, originário de uma antiga família de industriais proveniente da Saxónia, partiu para Inglaterra para estudar filosofia. O seu pensamento é geralmente dividido pelos investigadores em duas fases. Para identificá-las, muitos autores recorrem ao método de atribuir os escritos da juventude ao Primeiro Wittgenstein e a obra posterior ao Segundo Wittgenstein, como se tratasse de dois autores distintos. A cada um desses períodos corresponde uma obra central na história da filosofia do século XX. À primeira fase, pertence o Tractatus Logico-Philosophicus, (agora reeditado pela Fundação Gulbenkian), livro em que Wittgenstein procura esclarecer as condições lógicas a que o pensamento e a linguagem devem atender, ao representarem o mundo. À segunda fase, pertencem as “Investigações Filosóficas”, publicadas postumamente, em 1953. Nesse livro, Wittgenstein trata de seguir o Tractatus (embora numa perspetiva diferente), avançando em temas como a compreensão, a intenção, a dor e a vontade.

Karl Wittgenstein, pai do filósofo, era um colecionador de arte e mecenas de músicos e pintores, entre os quais artistas de vanguarda, tendo financiado a construção do edifício da Secessão em Viena. A mãe de Ludwig proporcionou aos filhos uma educação musical primorosa. Entre os frequentadores da casa dos Wittgenstein estavam artistas como Brahms, Mahler e Richard Strauss. Hans, o filho mais velho, começou a compor aos quatro anos de idade. Paul, um dos irmãos, tornar-se-ia um pianista de renome internacional, mesmo após perder a mão direita na Guerra. A ele foi dedicado o célebre concerto de Ravel. O próprio Ludwig tinha um grande talento. Depois, de ter estudado engenharia, chega ao Trinity College de Cambridge, para estudar lógica matemática com Bertrand Russell. Perante o dilema entre a filosofia e a engenharia, Russell aconselhou-o a escrever um ensaio filosófico.  Em janeiro de 1912, entregue o ensaio solicitado, Russell fica profundamente impressionado e convence o seu novo aluno a deixar de vez a engenharia. A partir de então, inicia-se uma intensa colaboração entre os dois, sobre as questões filosóficas suscitadas pela lógica matemática. Com a eclosão da Primeira Grande Guerra, Wittgenstein interrompe os estudos e alista-se como voluntário no exército austro-húngaro. Em 1916 é enviado para a frente russa. Recebe pelo seu desempenho várias condecorações por bravura. Nesse período, lê e divulga os Evangelhos explicados por Tolstoi. Em outubro de 1918 está na frente italiana, onde é feito prisioneiro. Graças aos seus amigos de Cambridge, consegue ter acesso a bibliografia e envia diversos textos seus para Inglaterra, recebendo de Russell rasgados elogios. Depois de libertado em 1919 procura que os textos sejam publicados.  Uma tradução inglesa é acertada e Wittgenstein concorda com o título de “Tractatus Logico-Philosophicus”, numa alusão ao “Tractatus Theologico-Politicus” de Spinoza. Bertrand Russell escreve uma introdução. A recetividade dos editores não é, porém, a que o autor esperaria. Em 1922 surge a primeira edição, mas Wittgenstein sente-se frustrado por entender que o livro não recebe os ecos merecidos, considerando que a obra corresponde à maturidade do pensamento.

Resolve então tornar-se professor primário, seguindo os métodos do Movimento de Reforma da Escola Austríaca, que defendia que a escola, em vez de impor a simples memorização, deveria estimular a curiosidade natural da criança e a formação crítica. Durante todo o tempo em que foi professor, Wittgenstein procura ser colocado em áreas rurais; mas depara-se com resistências, apesar de obter bons resultados com algumas crianças que conseguem alcançar bons resultados. Os seus métodos de ensino eram extremamente intensos e rigorosos, e ele tinha pouca paciência para as crianças. Suas medidas disciplinares levaram a uma série de desentendimentos com os pais dos alunos. Em face das dificuldades, Wittgenstein acaba por renunciar ao cargo de professor e retorna a Viena, convencido de ter fracassado. Depois de abandonar a docência, Wittgenstein trabalha como assistente de jardineiro num mosteiro nas proximidades de Viena. Contrai uma depressão de que só consegue sair quando sua irmã Gretl, que Klimt retratou em 1905, o convida para trabalhar com o  arquiteto Paul Engelmann, na construção da sua nova casa. Wittgenstein e Engelmann desenharam uma casa modernista inspirada em Adolf Loos, tendo o pensador dedicado uma atenção especial ao design do equipamento. Estava em causa a busca demorada da perfeição e do equilíbrio, que levaria a dizer-se que se tratava mais de uma mansão dos deuses do que para pessoas. É deste tempo o contacto com o Círculo de Viena, através de Moritz Schlick, que estimulou Wittgenstein intelectualmente e reacendeu seu interesse pela filosofia. Entretanto, um jovem estudioso da filosofia da matemática Frank Ramsey, viaja de Cambridge até a Áustria para se encontrar com Wittgenstein.

No curso de suas discussões com o Círculo de Viena e com Ramsey, Wittgenstein começa considerar que poderia haver “graves erros” no Tractatus – a partir daí, tem início uma segunda fase da sua pesquisa filosófica, que iria ocupá-lo até o fim da vida. Regressado a Cambridge, onde tenta recomeçar a sua formação, obtém sem dificuldade o reconhecimento, perante Bertrand Russell e George Edward Moore (1873-1958) – afirmando este: “É minha opinião pessoal que a tese do sr. Wittgenstein é uma obra de gênio. Assim sendo, certamente está perfeitamente à altura dos padrões exigidos para receber o grau de doutor em filosofia”. No ano seguinte, Wittgenstein torna-se Fellow do Trinity College. Em 1930, começa a lecionar em Cambridge. As aulas ministradas por Wittgenstein eram, no entanto, pouco convencionais. Segundo relatos, às vezes parecia simplesmente que expunha o que pensava naquele momento; outras vezes, ficava calado por longos períodos. Frequentemente esses encontros assumiam a forma de diálogos: Wittgenstein fazia uma pergunta, aguardava uma resposta de algum dos presentes e a partir dessa resposta propunha novas questões. Manifestava-se assim a sua personalidade muito complexa. Ainda tenta partir para a União Soviética, depois apoia a causa dos Aliados, em 1939 sucede na cátedra de G.E. Moore em Cambridge. Durante a Guerra, querendo participar, oferece-se como servente num hospital em Londres, depois de 1945 regressa ao ensino em Cambridge, deixando a função em 1947. Os últimos anos, ocupa-os a rever e a completar o que produziu no Tractatus. Mente perturbadoramente brilhante, mas sempre em busca da perfeição, prossegue a ideia de paz filosófica. É nesta preocupação que se insere a conferência sobre a Ética de 17 de novembro de 1929 no clube “The Heretics”, onde se sentem os ecos da sua obra mais conhecida. Sendo “a proposição  uma imagem da realidade”, a “linguagem da ética não pode deixar de ter a dimensão expressiva como sua marca essencial”. Assim, o absoluto ético e o absoluto místico coexistem e é aqui que Wittgenstein se sentirá menos compreendido. Afinal, Tolstoi ou Kierkegaard são autores  para quem os clássicos temas da ética têm implícito o elemento religioso, a tal ponto que não existe juízo ético que não seja proveniente desse outro indizível dizível que é a vivencia religiosa. Eis porque a obra de Wittgenstein abre diversos campos que nos permitem entender a vida humana na sua complexidade.


Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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