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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

Bibliotecando em Tomar: Entre o Natural e o Construído


O Bibliotecando em Tomar terá lugar dentro de dias, sob o tema “Entre o Natural e o Construído”, tendo como convidado especial Valter Hugo Mãe.

Pelo décimo sexto ano consecutivo, realiza-se nos dias 8 e 9 de maio o festival literário Bibliotecando em Tomar, numa organização conjunta dos Agrupamentos das Escolas Nuno de Santa Maria e dos Templários, em ligação com a Câmara Municipal de Tomar, o Centro de Formação ‘’Os Templários’’, Centro Nacional de Cultura, Instituto Politécnico de Tomar e a Rede de Bibliotecas Escolares. Este ano será homenageado Valter Hugo Mãe, um autor referencial com uma obra vasta, multifacetada e premiada, que será discutida, refletida, analisada e interpretada num diálogo envolvendo perspetivas diversificadas e complementares. O tema em torno do qual se centram os debates e as reflexões deste ano é «Entre o natural e o construído», a partir das tensões dilemáticas entre tais realidades. Num tempo de grandes incertezas e de cenários imprevisíveis, nos quais a guerra e o medo do outro e das diferenças se manifestam – estamos perante a contradição insanável entre a natureza e a criatividade humana. Assim, o património cultural vê-se confrontado entre a exigência de respeito pelo que herdamos das gerações que nos antecederam, onde avulta o direito e a dignidade humana, e a necessidade de lançarmos as bases de uma ordem humana centrada na cultura da paz.

O humanismo não pode centrar-se na indiferença ou no absolutismo ético, cego e intolerante. Os seres humanos, livres e iguais em dignidade e direitos, relacionam-se entre si, compreendendo e respeitando as diferenças, bem como com os territórios – sociais, culturais, afetivos, políticos – segundo o velho princípio da subsidiariedade, que nos obriga a partir do que está próximo e do que é local até ao planetário. Importa compreender, no fundo, o “pensar global e o decidir local”? Com efeito, a perspetiva emancipadora obriga a entender a complexidade, de que tem falado Edgar Morin, bem como a consideração da humanidade como uma comunidade de destino, centrada no pluralismo e na diversidade. Como se recorda no texto inicial da iniciativa, importa ter presente o que afirmou Michel de Certeau em l’invention du Quotidien (1980), «l’espace est un lieu pratiqué», argumentando que cada território se forma através dos gestos, percursos e apropriações daqueles que o atravessam. As nossas construções, sejam elas físicas, sociais ou simbólicas,  emergem de uma relação dialógica entre as comunidades que formamos e os territórios que habitamos até às cidades que construímos e ao mundo que procuramos defender e preservar. Lembremo-nos que a educação, a cultura e a ciência se desenvolvem mercê da capacidade criadora da pessoa humana, há, por isso, sempre na capacidade criadora o elemento “construção” (que os alemães referem como “bildung”). Enquanto a cultura vem da nossa relação com a natureza, como referência aos campos e às agricultura, antes da cultura do espírito e do pensamento, a literatura, as artes, a música, as ideias envolvem uma dinâmica, em que a ética da convicção, se liga à ética da responsabilidade, em que o talento, o afeto, a capacidade criadora ganham força e tornam-se expressão da vontade, da autonomia e de emancipação.

No tempo presente, esta reflexão ganha novos contornos com a emergência da inteligência artificial e das tecnologias digitais, que vieram confrontar as conceções tradicionais de «natural» e de «construído». Afinal, a tecnologia torna-se um novo modo de memória, urgindo distinguir o que é do domínio dos meios e o que pertence aos fins. E para que não haja inversão de valores, importa não nos tornarmos meros instrumentos do progresso técnico. Distinguindo fins e instrumentos, devemos salvaguardar o primado da dignidade humana, pondo o progresso material ao serviço da humanidade, numa sociedade que deseja prosseguir um caminho no sentido de um mundo melhor. Daí a necessidade de transformar a informação em conhecimento, compreendendo o poema de T. S. Eliot: “Quanto conhecimento se perde na informação, / Quanta sabedoria se perde no conhecimento”. Eis o que importa desvendar.

As sociedades modernas enfrentam desafios crescentes para a compreensão da realidade que nos cerca, marcada pela supremacia do desejo individual, do consumismo e do curto prazo, em detrimento da aprendizagem, do exemplo, da experiência, da reflexão, da ponderação e da prevenção.  Contrariando o erro e a ilusão que originam distorções, simplificações ou a negação de factos estabelecidos, como vemos nas redes sociais, com uma profusa divulgação de relatos contraditórios e tantas vezes falsos, é preciso clarificar conceitos.

Bibliotecando em Tomar tem sido um fecundo espaço de partilha e de escuta, onde se cruzam diferentes perspetivas – da literatura às artes plásticas e visuais, da política social às preocupações científicas, ecológicas, da inteligência artificial ao senso comum. Importa recordar um belíssimo texto de Valter Hugo Mãe onde nos fala do lugar central das bibliotecas na construção da humanidade. Diz-nos ele: «As bibliotecas são como aeroportos. São lugares de viagem. Entramos numa biblioteca como quem está a ponto de partir.» (JL, 2013). É este o espírito que nos anima. Desejamos, como sempre nas iniciativas que desenvolvemos, ligar a leitura à capacidade de viajar no tempo e entre vários tempos. E permito-me recordar o entusiasmo desta equipa extraordinária que continua a tornar viva esta fantástica experiência. Não esqueço, por isso, quem me desafiou a vir até aqui – o Embaixador António Pinto da França, com o espírito de abrir horizontes novos, tornando Tomar um centro de ideias e uma sementeira riquíssima de criação e inovação. Agradeço ainda especialmente a quem tem sido a verdadeira alma do Bibliotecando em Tomar, a Doutora Agripina Carriço Vieira, sem cujo entusiasmo e determinação não teria sido possível chegarmos até aqui, com uma grande esperança nas possibilidades de futuro, na realização plena de uma sociedade de cultura e de aprendizagem. Numa história já longa, em que todos os participantes trouxeram sempre algo de novo em cada pedra que fomos pondo no caminho, não esqueço momentos heroicos, como aquele em que tivemos um diálogo singularíssimo ente Eduardo Lourenço e José-Augusto França, fazendo jus à ideia de tornar o Bibliotecando o paradigma do encontro sublime que Umberto Eco considerou ser a realização de uma “Biblioteca do Mundo”, na qual acontece muitas vezes irmos em demanda de um livro ou de um autor, mas descobrimos outras obras de cuja existência não suspeitávamos e que, todavia, se revelam tão importantes a ponto de poderem mudar destinos… Afinal, o que desejamos é que em torno dos livros e dos autores, do pensamento e das artes possamos descobrir os novos caminhos que se bifurcam e que nos conduzem aos segredos da humanidade, escondidos desde o princípio dos tempos.

A VIDA DOS LIVROS, de 20 a 26 de abril de 2026, por Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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