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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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“Remains II (Family II)” de Annette Messager

A instalação ‘Remains II (Family II)’ de Annette Messager apresenta peluches pendurados numa parede – os inteiros estão vazios, os bocados estão cheios. As formas são amorfas e absorvem tudo. As partes dos corpos dos bonecos são disformes, parecem patas, pernas ou caudas. 

Ralph Rugoff, no prefácio do catálogo da exposição ‘Annette Messager. The Messengers’ (Hayward Gallery, 2009), sugere que a obra da artista Annette Messager incorpora a noção de que um indivíduo não é unitário, nem coerente. O indivíduo é uma coleção de impulsos e características diversas e abrangentes. 

A coleção destes peluches em ‘Remains II’ é bizarra, mas igualmente ternurenta. Podem ser restos rasgados e abandonados, mas também uma maneira de dispor e de mostrar tudo o que se tem de mais precioso. 

Os peluches têm essa capacidade de transportar memórias, de ser a representação da imaginação e do sonho. São momento presente e abertura de possibilidade, mas também passado, receio e insegurança. Os peluches das crianças têm essa dualidade, podem ser assustadores, mas ao mesmo tempo aconchegam os medos e a solidão da noite.


‘estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio 
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera 
da noite’, Luiza Neto Jorge (5 poemas para a noite invariável)


Em ‘Remains II’, Messager explora diferentes escalas e tamanhos de peluches – o gigantismo das figuras centrais faz lembrar os sonhos febris. Um peluche não é um objecto banal, pois carrega significados e conserva lembranças. Os brinquedos, na infância, ajudam a projetar o futuro e a desejar o mundo.

Tal como Sophie Duplaix explica no texto ‘Playing with forms of ‘I’’, Messager põe as faculdades mentais do público a teste: O que devemos preservar? Com o que é que nos devemos identificar?

À noite, os peluches são vistos e entendidos às partes, um braço que toca, uma perna pendurada, uma cauda caída. A escuridão traz movimentos, visões e os bonecos pregados numa parede podem representar uma legião de figuras que em simultâneo protegem e ameaçam. O constante olhar, a presença permanente destas figuras assegura incertezas. A brandura dos peluches leva as crianças pela noite e pelo mundo inesperado e desconhecido. A noite é escura e os peluches podem transformar-se. 

O trabalho de Messager tem esta capacidade, de nos transportar para esses momentos que já foram e que quando lembrados ficam distorcidos e fragmentados. Os peluches em ‘Remains II’, são formas em formação, são pequenas porções do passado, são preparações para o amanhã.

Duplaix escreve que a dissecação e a assemblagem é muito característica de Messager e também das brincadeiras da infância. O vocabulário criado por Messager vem do universo da fantasia e despoleta suspense, medo, terror e mesmo violência. O gozo e a liberdade de fazer tudo de maneira diferente e não planeada, desordena a regra das coisas. E a produção de aberrações e de monstros fazem parte dessa liberdade e dessa experiência de brincar. E Duplaix revela que a Annette Message explora esta dinâmica de criação / destruição, coleção / dispersão. 

Messager ao dispor pedaços de peluche numa parede, joga com princípios que desafiam as definições habituais, pois não há qualquer compromisso com o estabelecido. O jogo infantil de objetos e de brinquedos funciona como uma porta sagrada, uma entrada para um novo entendimento daquilo que existe.

‘Remains II’ está assim entre o animal e humano, entre o que está vivo e o que está inerte. Os brinquedos tomam vida nas mãos das crianças, na nossa imaginação e na nossa memória. Porém apresentam-se estáticos, passivos e mortos se pendurados numa parede. 

O silêncio dos bocados evoca assim mil vozes em surdina. A disposição destes fragmentos únicos e bizarros na vertical pode representar uma ameaça, mas na verdade prepara para aquilo que se segue. 

Sendo assim, ‘Remains II’ contém peluches esvaziados e metamorfoseados, bocados com novas formas. Os peluches podem alterar a nossa relação com o mundo, sendo um escape, uma antecâmara, um bastidor para o teatro da vida. Preparam o caminho e abrem o sonho como alternativa. A evocação de uma história ou de histórias aos pedaços pode provocar estranheza e transtorno, mas faz lembrar que somos feitos de peças disformes e imperfeitas, diferentes e penduradas por um fio. Somos nós que estamos ali e fazemos parte daquele todo, onde o estranho e a fantasia surgem conjugados e unidos.

“Because over and above the way she (Annette Messager) infringes rules and denies conventions, she also expresses a whole repertory of gestures which are aimed at the destruction of human integrity. Pricking, cutting, disembowelling, dissecting, skinning, dividing, tidying up, incarcerating, distorting, exhibiting, violating (privacy), and spattering are all assaults made on materials. And at the end of the day it matters little that these latter conjure up an animal or human form: in the way in which they all manhandled, in their pitiful reactivity – swelling, bending, twisting, scattering, overspill – they all summon our suffering bodies, to the ‘verge’”, Sophie Duplaix In ‘Annette Messager. The Messengers’ 2009, p.19.


Ana Ruepp

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