auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

Categories

Crónica da Cultura

Mas é mal feito… meu pai, é mal feito… é mal feito… minha mãe

Começara, então, para Maria do Rosário, uma existência abandonada.

Desde que se casara com aquele traste pegado ao vinho, apoderou-se dela uma tristeza tal que nem o nascer dos pintos lhe arrancava um sorriso breve.

Todos os seus deveres, agora que deles passara a ausentar a sua alma, eram-lhe sentidos como fardos de lâminas e a sua vida representava-se-lhe como uma desgraça.

Não se revoltara contra o pai ou contra a mãe, que lhe não deram tréguas aos ouvidos a convencerem-na do dever de casar e de que isso do vinho passaria ao Aires mal se casasse; e, se não passasse, como ele, não havia ninguém na aldeia com tantas posses e que família rica se formaria dali, e que não mais fadigas a tolheriam, diziam-lhe quase aos gritos

E pensava agora numa memória ainda isenta

Mas pai, eu até gosto das fadigas da nossa casa e dos campos, das suas, das dos irmãos e das da mãe, que à noite, tolhida, eu só de cansaço, mas com o vosso cheiro por perto, eu acho até que o mundo nunca acaba

Rosário, Maria do Rosário, quando se finará isto de te fazer pensar no certo e no quanto nos podes compensar a nós, que te criámos a braços de dolorosos ais?

mas é mal feito… meu pai, é mal feito… é mal feito … minha mãe que me escorraçais assim tanto que nem as águas de malvas me limpam as feridas de vos ouvir. O que será de mim longe de vós?

Olhava naquele dia abstratamente a paisagem que dali se avistava, com as lágrimas, quatro a quatro, caindo-lhe pelas faces, enquanto rezava à Senhora das Graças, que logo dela se apoderava, criando no seu espírito uma gota de tempo idealizado que lhe aparava o ir

e, à frente de todos, e abandonada, disse sim ao Aires, sentindo-lhe logo o mau hálito do vinho e o quanto o dele se assemelhava com o de todos ali presentes pela boca ou pelos olhos

mas é mal feito… meu pai, é mal feito… é mal feito… minha mãe

Teresa Bracinha Vieira

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *