Começara, então, para Maria do Rosário, uma existência abandonada.
Desde que se casara com aquele traste pegado ao vinho, apoderou-se dela uma tristeza tal que nem o nascer dos pintos lhe arrancava um sorriso breve.
Todos os seus deveres, agora que deles passara a ausentar a sua alma, eram-lhe sentidos como fardos de lâminas e a sua vida representava-se-lhe como uma desgraça.
Não se revoltara contra o pai ou contra a mãe, que lhe não deram tréguas aos ouvidos a convencerem-na do dever de casar e de que isso do vinho passaria ao Aires mal se casasse; e, se não passasse, como ele, não havia ninguém na aldeia com tantas posses e que família rica se formaria dali, e que não mais fadigas a tolheriam, diziam-lhe quase aos gritos
E pensava agora numa memória ainda isenta
Mas pai, eu até gosto das fadigas da nossa casa e dos campos, das suas, das dos irmãos e das da mãe, que à noite, tolhida, eu só de cansaço, mas com o vosso cheiro por perto, eu acho até que o mundo nunca acaba
Rosário, Maria do Rosário, quando se finará isto de te fazer pensar no certo e no quanto nos podes compensar a nós, que te criámos a braços de dolorosos ais?
mas é mal feito… meu pai, é mal feito… é mal feito … minha mãe que me escorraçais assim tanto que nem as águas de malvas me limpam as feridas de vos ouvir. O que será de mim longe de vós?
Olhava naquele dia abstratamente a paisagem que dali se avistava, com as lágrimas, quatro a quatro, caindo-lhe pelas faces, enquanto rezava à Senhora das Graças, que logo dela se apoderava, criando no seu espírito uma gota de tempo idealizado que lhe aparava o ir
e, à frente de todos, e abandonada, disse sim ao Aires, sentindo-lhe logo o mau hálito do vinho e o quanto o dele se assemelhava com o de todos ali presentes pela boca ou pelos olhos
mas é mal feito… meu pai, é mal feito… é mal feito… minha mãe
Teresa Bracinha Vieira