A rapariga é desabrida! Dá-lhe aquilo e salta da cama, e a gritar salta todos os muros da horta, das vinhas, das eiras, dos charcos e grita, grita sempre muito e alto e corre, corre loucamente aquela criatura até se esparramar no chão como se ele a pungisse e ela logo desmaiada ali fica.
Mas que dizes, mulher, que até me arrepia?,e ela faz isso muitas vezes?, e os pais nada dizem? Já a benzeu o padre, não fora coisa de lá do diabo que lhe ande a atalhar? Olha a Bertinha, para o que lhe havia de dar!
Pois só sei que lhe dá todos os meses e que fica meio adoentada depois e fica muito cansada e distraída também, segundo me diz a mãe. E quanto ao padre, ele só acha que é um espírito fraco o dela, mas que se lhe derem muito trabalho ela amansa, ou então que a casem, e não fazendo de tolo o padre, parece-me que isto não tem jeito de ser assim pensado, a rapariga até pode ficar falada se nada fazem e depois, como é?
– Agora falo eu – atalhou a avó, um dia.
– Faze a tua vontade Berta. Parte daqui. Vou te ajudar a fazer uma trouxa. É ingratidão e desconhecimento o que te têm. Não sabem que para fazeres a digestão da felicidade que almejas, tens de correr muito, gritar muito e só depois, enfim, eu até que me entrelembro de ter tido qualquer coisa parecido a ti, mais ou menos na tua idade e olha, não deixes de almejar, deixa falar a vontade que ainda hoje acho que era um sonho bom.
Teresa Bracinha Vieira