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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Mário Cláudio, retrato de Graça Martins

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A Vida dos Livros

“Pôr-do-Sol com Leão Deitado” de Mário Cláudio

“Pôr-do-Sol com Leão Deitado” de Mário Cláudio (D. Quixote) é o livro mais recente de um dos escritores portugueses que mais tem refletido sobre a cultura portuguesa e sobre os seus mais importantes temas e protagonistas.

Em três ritmos, Mário Cláudio publica na D. Quixote “Pôr do Sol com Leão Deitado”. Do que se trata é de uma imersão total no mundo da literatura De início, temos o relato pessoal sobre uma perda e sobre o sentido intenso de uma saudosa relação humana. Acompanhamos um diálogo íntimo enriquecido pelo retrato sociológico da cidade. Numa caminhada feita de recordações e de imaginação – é a alma do escritor que se espraia. É no fim da tarde, literal e substancialmente falando. “A Mãe surgia devagarinho, apoiada no bastão de mogno, encastoado a prata lavrada, e eu ajudava-a a deslocar-se diante das colagens do patamar, concebidas como manuscritos meus em guardanapos de papel. Lançava um relance distraído às plantas ornamentais e prescindindo do meu braço, firmava-se nos passinhos com que se movimentava, segurando-se no corrimão, e utilizando a parte mais larga do pavimento depois da curva em que haviam desenhado a escadaria. Na sua elegância quase centenária, e festejante da vida, a Mãe aplicava automaticamente a sua ciência da burguesia educada, para quem a rua consistia em mera extensão da superfície doméstica, e esta conformava área tão respeitável como o espaço cívico. Apenas chegados à base, propunha-lhe eu então o amparo que aceitava, não como recurso de assistência, mas como gesto de cortesia”. E eis que a memória procede a um percurso que é um puro exercício de atenção íntimo, mas também uma sistemática rememoração dos lugares e passos citadinos. “A minha Travessa descreve um segmento ligeiramente encurvado a meio, porventura a preservar o casario que precede a sua abertura, e que não convém demolir”. E assim se estabelece o diálogo entre a realidade e a lembrança. A cidade é um alfobre de recordações, de povos, de acontecimentos, de pessoas, em tempos diferentes. A Idade Média e as origens míticas da urbe misturam-se com as invasões napoleónicas ou com o cerco do Porto e o confronto fratricida entre D. Pedro e D. Miguel. Os tempos diversos convergem entre si, entre memórias adultas e infantis. “Vacilando entre o passado e o presente, eternizo-me na embocadura da minha Travessa da Pisca, e adio a obrigatoriedade de regressar ao ninho. Procuro o tema final da meditação, suspenso de um nebulosa cronologia, e tão apto a devolver-me ao pretérito como a catapultar-me no futuro…” O dilema desenha-se entre “a aspiração do retorno” e “a nostalgia do percurso”. Tudo é um exercício magnífico de pura literatura que nos é tributado por Mário Cláudio. Cada recanto da cidade alberga as recordações ancestrais e as presenças comezinhas, os pormenores pessoais e a dor das presenças que não regressam. Entre realidades e fantasias, décadas e décadas decorrem. E até máscara de Pierrot  revela a porta do Circo Maravilhas.

Num segundo momento , há uma inusitada presença de um olhar de Sofala, em que um leão capturado em Moçambique, ainda jovem, viaja nos anos trinta do século passado até ao Porto para ser mostrado orgulhosamente na Exposição Colonial Portuguesa, sendo depois esquecido numa jaula. Há uma rica metáfora nesta deambulação, longe de qualquer fábula do tempo em que os animais falavam. De novo, é a pura literatura que aqui encontramos, é uma reflexão séria e oportuna do autor a recordar-nos o que não deve ser esquecido. O destino de Sofala é acompanhado pelos acontecimentos conhecidos da história colonial. As rotinas dos tratadores vão amolecendo e o tempo irá agravar o esquecimento e a impiedade no cenário do Palácio de Cristal. Para além do esquecimento e da indiferença, há uma atitude que marcará esse episódio triste, a consciência plena de que apenas haveria que esperar o desenlace fatal, sem um mínimo de atenção. “Crivado de feridas, um São Lázaro de sangue e pus, saliva e ranho, estira-se no cimento como um fardo, e nem o pio da coruja lhe prognostica a morte. Cadáver que assim viverá, assim haverá de partir, e sem coro de carpideiras que lhe encomendem a alma”.

O terceiro momento do livro leva-nos a António Nobre, quando o poeta partilha connosco o íntimo da sua personalidade e das suas angústias. “Coimbra para António Nobre vacilará entre a amante virginal e a implacável madrasta, simultaneamente propiciadora da patuscadas sem norte, e do puxão da rédea curta. Se lhe representam a juventude com um repositório de alegrias e descobertas, receia que ela se lhe revele uma via crucis a que condenam os que nunca o deixam só. Em semelhante contradição recrimina-se o ponto de, tendo reprimido alguns dos traços mais suspeitos da sua personalidade, cair no pânico de que o castigue a engrenagem de vulgaridades que não sabe dominar. (…). Ele olha à volta, e deteta a falange de heróis em que deverá integrar-se. Desprezam-no estes no entanto como incapaz de manejar espada e punhal, arco e flecha, e indigno por isso de receber a coroa de oliveira dourada com que a deusa cinge a fronte dos preclaros”. O célebre Anto é alvo da atenção do romancista, que toma consciência dos limites do talento do poeta de , sobretudo quando enfatiza a solidão, descobrindo-lhe a angústia. E um breve episódio demonstra o constrangimento e quase a ameaça de uma maldição… O doente faz medo, e ele tem consciência disso. “Columbano pedira-me (confessa o poeta) que me deixasse retratar por ele. Isto antes da partida para a Madeira, e agarrei-me à proposta como a legitimação da minha envergadura literária.  Do pincel do pintor resultaria um dandy rejuvenescido, de sobrecasaca de veludo azul-ferrete, num pastel de preparação do óleo acabado. Nunca eu o veria contudo, dado que desaparecera entre diversas obras do mestre, naufragadas com o navio que as transportava para uma exposição internacional”. Esse trágico desaparecimento simboliza o apagamento do artista e quase se assemelha a uma estranha maldição. Nestes três ritmos, Mário Cláudio homenageia a memória viva da literatura e do pensamento, como sua grande matéria-prima, cabendo aos seus leitores o julgamento dessa memória.

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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