Edmond Rostand
“Por que, durante semanas e meses, os porteiros chamarão todo mundo de meu príncipe (…). Por que, amanhã, todos os vendedores de flores terão todas as flores frescas (…) Porque, nesta noite, representava-se, pela primeira vez, Cyrano de Bergerac, no Théàtre de la Porte-Saint-Martin!“.
Non, non, mon cher amour, je ne vous aimais pas !
(…) je crois qu’elle regarde…
Quelle ose regarder mon nez
Il fait des moulinets immenses et s’arrête haletant.
Oui, vous m´arrachez tout, le laurier et la rose !
Arrachez ! Il y a malgré vous quelque chose
Que j’emporte ; et ce soir, quand j’entrerai chez Dieu,
Quelque chose que sans un pli, sans une tache,
J’emporte malgré vous,
Et c’est…
L’épée s’échappe de ses mains, il chancelle, tombe
Roxane, se penchant sur lui et lui baisant le front.
C’est ?…
Cyrano rouvre les yeux,
la reconnaît et dit en souriant.
Mon panache.
Cyrano não se declara a Roxane, respeitará a lealdade, o amor que sentia por Christian, ainda que a sua amada – a mesma mulher que Christian amava – amasse a sua alma sem o saber, através das cartas que ele escrevia , mas que sempre Roxane recebia como se viessem de Christian.
E quando por morte de Christian, Roxane guarda luto permanente refugiando-se num convento é Cyrano
pendant quatorze ans qui a joué ce rôle
D’être le vieil ami qui vient pour être drôle !
A mistura do trágico e do cómico releva de uma ética que somente a morte poderá libertar Cyrano, soltando-o da dolorosa tensão que não cessa de se infligir. Para ele, para Cyrano De Bergerac, a unidade total, a unidade única do próprio amor, funda-se na poesia que deve ser respeitada nas mais altas exigências espirituais, não num romantismo de céu azul que evoca o herói morto, mas unindo-o à coerência da terra, até nas evocações da Gascogne. Esta característica, uma das grandes fortunas da vida de Cyrano, do seu espírito irrequieto e atento à voz da morte, realidade que caracteriza por «une visite assez inopportune»
Assim, depois de catorze anos de visitas diárias a Roxane, no convento, um dia, Cyrano chega ao local, ferido por um atentado vingativo. Ferido, quase morto,devido a enorme pedaço de madeira que lhe fora atirado à laia de acidente. Mas, continuou a andar cambaleante até ao convento onde estava Roxane, e assimfoi visitar o seu amor e levar as notícias de fora, como de costume.
De repente, a morte a chegar lhe pede, e, Cyrano solicita a Roxane para lhe ler a última carta de Christian, a carta que ela trazia sempre consigo. Então Cyrano De Bergerac trai-se numa fragilidade só possível em muito amor e repete com ela as palavras da carta que afinal por ele tinham sido escritas, exactamente com o mesmo timbre de voz, a mesma emoção, o mesmo amor quando da sacada da casa de Roxane as dissera.
Roxane tudo entendeu de súbito e disse-lhe em lágrimas de desespero que muito o amava, je vous jure, mas Cyrano, àquela altura caído, ainda conseguiu dizer-lhe que era tarde. E morreu.
Roxane
Je n’aimais qu’un seul être et je le perds deux fois !
A nobreza de sentimentos do personagem desta peça de teatro, de resto inspirada em muito numa história real , a sua coragem, a sua ousadia e a sua sensibilidade, encarnavam o próprio ideal do povo francês. A peça revela-se um estrondoso sucesso e Edmond Rostand – eleito para a Academia Francesa, em 1904 – vê reconhecida a sua arte de, num ideal romântico, ceder também lugar ao mostrar da vida tal como ela é, denunciando mais o seu lado mau do que o seu lado bom e imortalizando o sofrimento de Cyrano por uma total oferta de liberdade , je vous aime, vivez! E através de um genuíno talento poético, inteligentíssimo no manejo dos vocábulos.
A obra, escrita em versos, também se debatia em versos quando o longuíssimo nariz de Cyrano era motivo de zombarias e duelos.
Deus !, de que imensa herança são feitas as palavras dos poetas !? Que la flûte aujourd’hui, guerrière des doigts d’oiseau ! Oui, monsieur poète, votre panache !, et les étoiles d’or que je viens de rapporter como se eu própria passasse férias em Luchon e tal como Edmond Rostand conhecesse um jovem de amor não correspondido e, por essa razão, escrevesse um clássico que é a realidade literária que nos implica e explica a todos, como dizia Sophia.
Uma das cenas mais comovedoras protagonizadas por Gerard Depardieu no filme Cyrano De Bergerac tem lugar quando Cyrano, ao escrever uma carta por dia a Roxane, em nome de Christian, chora, manchando a caligrafia com as lágrimas do sofrimento pelo desamor que, de tanto ser desamor se faz o amor que afinal
Quelle couleur! Je t’aime, je sui fou, je n’en peux plus, c’est trop !
E dizer que um dia se perguntou a Roxane a propósito do seu amor por Christian, «Même mort, vous l’aimez?», elle répond:
Quelque fois il me semble
Qu’il n’est mort qu’à demi, que nos cœurs sont ensemble,
Et que son amour flotte, autour de moi, vivant !
Et c’est Cyrano qui trouve le temps et la force pour la faire heureuse coûte que coûte, mais plus que tout, l’amour, l’amour, je vous le dis.
M. Teresa Bracinha Vieira
Junho 2014


