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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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HÁ QUEM VEJA NO ESCURO…

 

Minha Princesa de mim:

 

Esta é a noite  –  que noutra data aconteceria nas Igrejas Ortodoxas ou Orientais sem submissão a Roma, se não fosse um encontro do ano calendário gregoriano com o juliano fazê-las coincidir neste ano  –  em que a Igreja Católica ou Ocidental, também dita Romana, celebra ou comemora a Ressurreição de Cristo, ( acontecimento fundador da fé cristã) simultâneamente com as suas irmãs ortodoxas, grega e russa, Santa coincidência, que até leva irmãos afastados a celebrarem a fé comum… Tão só por isto, pela confirmação da fé em Cristo vencedor da morte, é inaceitável vergonha que tão santos e sábios papas e patriarcas nunca tenham conseguido chegar a um simplíssimo acordo de calendários… Sobrepondo-se à afirmação uníssona do essencial, as cristandades vão preferindo o espectáculo ridículo das suas teimas de datas. Se o tivessem conseguido, já  a Santíssima Trindade, com anjos e santos todos, lá do mais alto dos céus,  teria certamente aplaudido a festa simultânea da Páscoa cristã. Mas não é assim:  nem passa pela cabeça de tantos cristãos que, visto lá de cima, o sol, no Extremo Oriente, até nasce no Extremo Ocidente… Isto dito, volto à vigília pascal, à festa da luz. Lembro tempos de juventude, quando participava, com outros estudantes universitários, na reflexão, oração e celebração do tríduo pascal,num convento de dominicanos. À meia-noite de sábado, na missa da Ressurreição, quando explodia o canto gregoriano do Gloria , os frades despiam as capas negras que cobriam os seus hábitos brancos, acendiam-se as luzes todas, e de brancura e chama todos ficávamos inundados… Era lindo, sobretudo por esse sentimento de uma luz comum, incendiando o coração de todos, na mesma fé, na alegria da mesma esperança. Nunca esquecerei esses momentos, há memórias que não são simples recordações, são marcas fundas que permanecem. In illo tempore, naquele tempo, toda a liturgia católica se celebrava em latim, e a vigília pascal começava pelo lucernário, bênção do lume novo. Ainda hoje assim se faz, em vernáculo. E a procissão de entrada do círio pascal no templo ia cantando Laetetur et mater Ecclesia, tanti luminis adornata fulgoribus! Alegre-se a mãe Igreja, enfeitada pelo clarão de tantas luzes! E o prefácio da cerimónia continuava: Haec igitur nox est, quae peccatorum tenebras columnae illuminatione purgavit! É mesmo esta a noite em que uma coluna de luz dissipou as trevas dos pecados! A liturgia da Páscoa cristã serve-se, metaforicamente, do regresso vitorioso do sol que, a partir do equinócio da primavera, torna os dias maiores do que a noite. E longa vai a minha noite de vigília, em casa, quieta e em latim recitado por missal antigo, que mais não posso, pois que à quietude me obrigam as dores permanentes da coluna.  Sempre me fascinou o culto da luz, como o do sol  –  a mim, vê tu bem, que antes serei homem de silêncio e sombra. Mas talvez eu seja assim porque só quem se percebe nas trevas se sentirá despertado por um raio de luz que, de fora, quiçá de muito longe, o venha tocar… O erro de Diógenes talvez tenha sido o de procurar um homem à luz da própria lanterna. No prólogo do seu evangelho, S.João diz que a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a receberam. Confesso que me é difícil entender como não se vê a luz. Recordo aquele dito alemão: Die Rose ist ohne warum. Sie blühet weil Sie blühet. Parafraseando, digo: A luz é sem porquê. Brilha porque brilha. Mas porque a vêm uns, e outros não? Maria de Magdala descobriu, pela hora de alba, o túmulo de Jesus aberto e vazio. Correu a chamar Simão Pedro que com ela e João, o discípulo amado, foram verificar que no sepulcro apenas estavam as ligaduras e o sudário que envolveram o corpo. Este desaparecera. E foi nessa ausência que eles acreditaram, porque, como escreve S. João no evangelho, com efeito, eles ainda não sabiam que, de acordo com as Escrituras, ele devia ressuscitar de entre os mortos. Assim, os discípulos regressaram a casa, mas Maria de Magdala ficou a chorar frente ao túmulo. Debruçando-se sobre este, viu dois anjos que lhe perguntaram porque chorava. «Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram». Isto dito, voltou-se e viu Jesus que ali estava, mas ela não sabia que era Jesus. Jesus disse-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Tomando-o pelo jardineiro, ela disse-lhe: «Senhor, se foste tu quem o levou, diz-me onde o puseste e irei buscá-lo». Jesus disse-lhe: «Maria!» Voltando-se,ela disse-lhe, em hebraico,«Rabuni!», que quer dizer Mestre. Esta mulher, a mesma que vertera perfume nos pés de Jesus e os tinha enxugado com seus cabelos, a mesma Maria que escolhera a melhor parte  —  a escuta atenta das palavras do Mestre  —  foi a primeira testemunha de Jesus Cristo ressuscitado. Na tradição cristã, desde o papa S. Gregório Magno, Maria Madalena é a prostituta arrependida que de bálsamo lava os pés de Jesus, em casa do fariseu Simão, e é outra também: a irmã de Marta e Lázaro, que em Betânia, aos pés dele o escuta. Na devoção popular, ambas se confundem. Na arte europeia, a representação desta santa de que mais gosto, é o quadro de Georges de La Tour, essa Madalena Penitente, que está no Metropolitan de New York: Maria, de mãos postas sobre uma caveira posta no seu regaço, está serenamente sentada diante de um espelho, para o qual se vira, sem que nele se reflicta o seu rosto, mas tão somente a vela acesa que a alumia. Pressentimos que ela mesma não contempla a vaidade da sua beleza, mas apenas a luz que a fascinou e ela ama… Afinal, não é verdade que tudo lhe foi perdoado, por muito ter amado? Penso em tantos amigos meus, e ainda em conhecidos e desconhecidos, gente boa que diz não ter sido tocada pela graça da fé. Mas porque a tenho eu, que não sou melhor, nem sequer seu igual? Ou será que a ordem das virtudes teologais  –  fé, esperança e caridade (amor)  –  por vezes se invirta, por desígnio de Deus? Não serão todos esses ateus, agnósticos, confessores de outras crenças  —  que tanto bem querem e fazem aos outros  –  já iluminados por uma fé de que eu precisei primeiro para saber amar depois? Quem ama sempre espera, e um qualquer dia há-de ver a Luz. O amor é o modo permanente da fé. Depois de se ter revelado a Madalena, Jesus apareceu aos discípulos que, receosos, se haviam encerrado numa casa. Faltava S. Tomé. Quando, depois, ele reconheceu Jesus por tê-lo tocado  –  e acreditou  –  disse-lhe o Mestre: «Porque me vês, acreditas. Felizes os que não viram, e acreditaram. Assim, quem nas trevas pratica o amor dos outros já vive no modo permanente da fé. Dou-te uma mão cheia de amêndoas,

 

                                   Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

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