Um enraizamento da alma antiga numa temporalidade tão concreta como um rio.
As ideias, sim, as ideias são formas acima de tudo que excluem o tempo. E na melancolia, como dizia Shakespeare, encontramos a tomada de consciência de um tempo «saído dos eixos». E direi que os poetas foram os primeiros que se deram conta da melancolia, pois como dizia Eduardo Lourenço, tinham perdido a hora do homem no relógio de Deus.
Assim, e por assim ser, também um poema de Álvaro de Campos pode sentir-se em registos diferentes:
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
(…)
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
E num dos belos poemas de V. de Milosz
Ce sera tout à fait comme dans cette vie! Le même jardin.
Profond, profond, obscur. Et vers midi (…) réunis là et qui ne savent les uns des autres que ceci: qu’il faudra s’habiller…
Diríamos que afinal a melancolia é demasiado heterogénea para fazer nascer de imediato a consciência de que temos de nos saber livrar de uma grande parte de nós mesmos.
O empenhado despojamento de um Outono é essencial, de tal modo que, a condição humana, nos olhe finalmente, e nos faça saber pelo olhar, que, o espelho do tempo, é seguro pelas nossa mãos, defuntas de esperanças, de amores, de anseios, de memórias mais vivas que a vida presente, de horas que fogem da fonte originária.
E ainda assim a melancolia não é na essência a expressão de uma derrota.
É verdade que tudo está ligado, que é preciso assumir a consciencialização dessa transversalidade, mas o nosso sistema decimal impede-nos de pensar em zeros, apesar de estarmos sempre no grau zero de qualquer coisa; apesar de podermos, a partir daí, encontrar um enriquecimento, descendo às caves pitagóricas dos saberes secretos. Depois, com poucas forças, mimar a melancolia, a tal, tão concreta como um rio que desce às raízes da alma e como a existência de uma ilusão é uma realidade:
«Dimitri era aquele rapazinho com quem o jovem Tolstoi trocava radiosas confidências ; porque uma ilusão age sobre todo o universo que a cerca.»
Porque nadar entre os patos no tanque do quintal é também uma forma circular válida às regras da procura.
E um dia, será em parte melancolia, o dia, que nos leva conforme a natureza do por onde ando?
O dia em que sorrir não é coragem nem exílio, mas antes aproximação ao que enfim nos foi prometido. Um acreditar que a caça não morre no ninho.
Hoje, a carta que te escrevo, Eduardo, é esta. Uma maneira de agarrar o tempo com tudo lá dentro para no-lo restituir.
Uma carta que se permite uma desprofissionalização das palavras e que por ave te envio.
M. Teresa Bracinha Vieira
Junho 2014
