O título desta evocação não tem nada de ambíguo, nem deve ser lido à luz da indiscutível ”teatralidade” da vida publica de Garrett, essa sim, em si mesma indiscutível, naquela simbiose de sentimento, excessos e capacidade, por vezes mesmo genial mas sempre veemente, de expressão e manifestação de ideias e sentimentos: nisso foi Garrett um grande exemplo e uma excecional referencia iniciática no romantismo português – e tanto na criação poética e literária, como na atividade publica e politica, mas também na vida privada e sentimental…
Em tudo isto , de facto, Garrett deixou uma marca excecional. E teve sempre disso consciência, não hesitando nunca no autoelogio, quantas vezes aliás merecido, ou da autocomiseração, essa nem sempre adequada. Lembramos, como exemplo a passagem chave o Relatório sobre a Reforma do Teatro português, datado de 12 de Novembro de 1836, encomendada por Paços Manoel, e onde Garrett, dirigindo-se a D. Maria II, não hesita em se autoelogiar, de forma certamente justa mas insólita num texto oficial: “Valetudinário e achacado de corpo e espírito, que ambos quebrei no serviço de Vossa Majestade, e pela santíssima causa da liberdade da minha Pátria”…
Mas recuemos 15 anos. Em 29 de Setembro de 1821, Garrett estreou e interpretou no Teatro do Bairro Alto em Lisboa o “Catão”, de sua autoria, num espetáculo de amadores que viriam a ser, mais tarde, figuras de relevo na vida politica e literária portuguesa. Garrett interpretou o papel de Brutus, filho de Catão ,“diante de um publico exclusivamente composto de quanto tinha então de mais brilhante a sociedade e a corte de Lisboa (…) e obteve a mais completa ovação que ainda conseguiu talvez nenhum dos nossos poetas”… Ora, quem faz estes elogios é o próprio Garrett!
Só que essa récita ficou marcada na vida do autor, para o bem e para o mal, pela presença, no publico, da jovem Paula Midosi, então com 13 anos de idade, e que viria a casar meses depois com Garrett , casamento que como se sabe acabaria mal.
Garrett volta a intervir como ator nada menos do que na estreia do “Frei Luis de Sousa”, em 1843. E não, num personagem menor, que aliás a tragédia em rigor não comporta..
A peça teve a sua primeira representação na Quinta do Pinheiro em Sete Rios, então arredores de Lisboa. E também aqui se reuniu para o efeito um grupo de amigos, ilustres na politica e na sociedade da época. Garrett interpretou nada menos do que o Telmo Pais, presume-se com dificuldades de locomoção, pois em março daquele ano sofrera uma acidente que o imobilizou durante semanas com uma luxação na perna.
Foi um Telmo Pais ainda um pouco coxo, o que valeu elogios amigos e irónicos de Alexandre Herculano, com quem Garrett convivia desde o exílio de Londres – mas aí não consta que Herculano tivesse podido assistir á estreia do “Catão”!
DUARTE IVO CRUZ
