A Ausência do Corpo.
Lourdes de Castro e a Sombra Deitada (1970).
‘We name ‘soul’ to be a ‘thin insubstantial human image, in its nature a sort of vapour, film, or shadow… mostly palpable and invisible, yet also manifesting physical power.’, Edward B. Taylor, Primitive Culture, vol.1 (London 1871)
Lourdes de Castro (1930) em 1957 optou por sair do país, vindo a beneficiar de uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian. Após estadia em Munique, fixou-se em Paris. Juntamente com René Bertholo fez parte do grupo KWY.
O seu trabalho em Paris aparenta um registo abstraccionista muito próximo do registo dos expressionistas abstractos. Porém a partir de 1961 decidiu abandonar os suportes tradicionais da pintura. A sensibilidade e abertura ao trabalho dos Nouveau Réalistes levou Castro a coleccionar objectos, a dispô-los em caixas, actuando sobre eles, uniformizando-os com uma só cor (por exemplo ao usar o prateado, Lourdes conferia de novo valor aos objectos desaproveitados). Os objectos são de uso corrente, são bens de consumo desperdiçados, são memórias da vida quotidiana. Ora o cuidado pela colecção de objectos, aparentemente sem valor, e a necessidade de camuflagem trouxeram um aprofundar da presença/ausência desses objectos – trouxeram o interesse pelo trabalho da sombra.
O contorno, a silhueta, a sombra passaram a ser a sua temática, o modo de representar o mundo.
A partir deste tema Castro desenvolve sombras recortadas, sombras projectadas, teatro de sombras, sombras bordadas sobre lençóis – vários modos de registar o fugaz, o efémero, o imaterial, a fuga à representação. O fundo e a figura em silhuetas esvaziadas.
Toda a sua obra futura se definiu a partir desta fixação de silhuetas em tela, em plexiglas, em lençóis… Aliás o plexiglas permitiu-lhe, a partir de 1964, criar objectos silhueta com sombra própria, favorecida pela sobreposição de placas transparentes mas coloridas. O contorno estabelece-se assim numa dimensão imaterial – a sombra da sombra.
Castro desenvolve outras acções, para além do domínio da pintura, relacionadas com o teatro e a performance. Entre 1972 e 1973, em Berlim, decide dedicar-se exclusivamente ao estudo e aperfeiçoamento do teatro de sombras (a que se dedica a partir de 1966). O teatro de sombras, inspirado na tradição chinesa e nos happenings, efectivou-se a partir de espectáculos como As Cinco Estações (1976) e Linha do Horizonte (1981), feitos em colaboração com Manuel Zimbro.
A obra de Lourdes Castro, na primeira fase dedicada aos objectos e aos recortes, define uma longa reflexão sobre o problema da sombra na pintura. Sombra, ambiguidade, eco, vazio, desmaterialização, temas igualmente desenvolvidos por Jorge Martins, Ana Vieira, Noronha da Costa e Cruz Filipe.
Em 1968, Lourdes de Castro começou a bordar sobre lençóis contornos de sombras, tendo abandonado totalmente o suporte de parede para passar a fazer algo muito mais relacionado com o quotidiano, investindo em objectos que questionavam o estatuto moral e metafísico da obra de arte. A actividade iniciada por Lourdes de Castro abre-se a uma prática mais artesanal que se aproxima do homem comum. As sombras deitadas, em 1969, aparecem sobre a cama, em lençóis estendidos, sozinhas ou acompanhadas. Num registo intimista existe uma clara vontade de Castro em conciliar o seu trabalho com o dia-a-dia.
É a desmaterialização do objecto, que passa a ser nada. É paradoxo porque a presença do objecto aconteceu outrora e não faz mais parte do momento da percepção, ficando a dúvida se a memória é algo que se possui ou algo que se perde.
Lourdes de Castro revela o banal, mas altera o conhecimento que se tem sobre ele porque no lençol não está um corpo deitado está antes o carimbo desse corpo, que outrora fora presença e que agora se tornou ausência. É tão subtil o gesto que até pode passar despercebido. A sombra traz a frieza, a indiferença, congelando um momento, que fixo não se distingue – muito no seguimento das obras de Duchamp e neo-dadas. O elemento que se regista é o irreal, o impalpável. As situações eleitas são tão familiares que coincidem com vida.
Ana Ruepp
