Minha Princesa de mim:
Não será o amor eleito
ligeiro no coração,
e não há amor perfeito
quando diz sim e ora não…
Verdade vive no peito
sem mentira ou condição
amor é jeito sem jeito,
inteirinho nesta mão…
Nasce igual ao que morrer,
morre igual ao renascer,
é fé teimosa e esp´rança
e é sua força a fraqueza
da graça tão indefesa
de um sorriso de criança…
Se é o amor assim tão simples, como poderá, já tarde, parecer-nos tão difícil? O amor é tão natural em nós que, quando nasce, mesmo surpreendente não nos surpreende, e quanto mais apaixonado tanto mais ingénuo… É genuinamente feliz, alegra-se e sorri como menino no berço, quando gosta do som de uma voz sem saber porquê nem de quem. Mas logo se apaixona pela voz de sua mãe, porque a sente presente, muitas vezes repetida e sempre de coração novo. E a mãe que, na sofrida dor do parto o libertou para uma nova vida — que será cada vez menos dela — deixa-se agasalhar pelos mimos dessa criança, como aquele mendigo que, diz-nos frei Luís de Sousa, visitou frei Bartolomeu dos Mártires, ainda pequenino, ao colo de sua mãe: Encarou no pobre todo risonho, todo alegre, debatendo-se pera ele, e festejando-o com as mãozinhas, boca e olhos, como se fora um dos mais conhecidos de casa; e enquanto o pobre não se despediu, não desviou os olhos dele, nem deixou de o estar agasalhando com aquelas inocentes mostras… Será que a naturalidade do amor em nós se perde — ou se torna difícil amar — quando se perde a inocência, como Adão e Eva descobrindo-se nus quando expulsos do paraíso? Será que a pulsão de Eros elimina Psyche? Conta-nos o mito greco-romano que, ciumenta da beleza inigualável da princesa (outra Princesa!) Psyche, Afrodite (Vénus) envia seu filho Eros (Cupido) para a induzir a amar e entregar-se a um homem reles. Mas, desta feita, Cupido não atira setas de amor fatal, é ele mesmo quem se apaixona e convence a princesa a deixar-se visitar por ele todas as noites, impondo todavia a condição de esta nunca lhe ver o rosto. Assim será, até quando as diabólicas irmãs de Psyche a convencem a, armada de punhal,surpreender Cupido que dorme, iluminando-lhe o rosto com uma lamparina. Mas desta cai, sobre o ombro de Eros adormecido, uma gota de azeite, que o desperta. Foge então a filha de rei, persegue-a o filho de deuses (Hermes=Mercúrio e Afrodite=Vénus), mas só ao cabo de muitos trabalhos e peripécias, depois de vencidas por Psyche as provas que a deusa do amor lhe impunha, os dois amantes se reúnem sob a protecção de Zeus=Júpiter, que os casa. Vejo a cena da surpresa de Psyche a Eros=Cupido, como, cerca de 1812, Andrea Appiani pintou para a Villa Reale, em Monza. E logo me ocorrem representações da morte de Marat, apunhalado,em 1793, na banheira onde escrevia, por Charlotte de Corday d´Armont, que desde David a Münch, tantos artistas pintaram e eu tão bem reconheço no Le Meurtre, desenho a lápis de Picasso (1934), com esta pergunta: poderá ser assassino o amor? Ou já não será amor o que destrói ou quer desfazer, porque quer possuir e a posse possível não satisfaz, ou vingar-se de um abandono, ou simplesmente largar e esquecer? Pensossinto: há sempre violência quando o amor é “política”… Mas amar não será, antes e depois de tudo, pelo esforço quiçá difícil de uma confiança que se entrega, a procura de um regresso à inocência perdida? Escuto, na voz tão linda de Montserrat Figueras essa canção de embalar de um anónimo português, recolhida na aldeia beirã de Monsanto:
José! embala o Menino
que a Senhora logo vem…
ó,ó,ó,ó…
foi lavar os cueirinhos
à fontinha de Belém…
ó,ó,ó,ó…
Quem tem o nome de mãe
nunca passa sem cantar
ó,ó,ó,ó…
quantas vezes ela canta
com vontade de chorar!
ó,ó,ó,ó…
Vai-te embora passarinho,
deixa a baga do loureiro…
ó,ó,ó,ó…
deixa dormir o Menino
que está no sono primeiro!
E não resisto a transcrever-te trechos de um comentário da grande soprano catalã, mulher e mãe, sobre o seu disco de canções de embalar: Já desde tempos imemoriais, a canção de embalar existe como uma das formas musicais de maior importância, presente, sem excepções, em todas as comunidades humanas… … A mãe ajuda a criança, para quem, a partir da sua vinda para o mundo exterior, tudo é novo e pode meter medo. A criança reconhece na canção a voz da mãe, a sua presença, o seu gesto…e na intimidade do momento cria-se um espaço de profundos símbolos ancestrais, onde a música e a palavra são vínculo de pura emoção e autenticidade. Desta forma se estabelece o primeiro diálogo, o primeiro conto, o ensino primário de tradições, vivências e culturas que se converterão, com o tempo, em parte essencial de uma memória colectiva… … Mas acima de tudo, há na mãe, no pai, nos irmãos mais velhos ou na avó que cantam, o desejo de dar o melhor de si mesmo, que não é mais do que um acto de amor e, deste modo, a criança começa a viver a essência da vida… Creio que, se o erotismo é, como diz Georges Bataille, a afirmação da vida até na morte, a canção de embalar é uma canção de despedida de si para dar vida e viver no outro. Sobrevivemos amando, isto é, desistindo de nós e transmitindo-nos. Como até já és mais do que crescidita, deixo-te uma canção, não para te embalar, mas para te fazer rir a sesta:
Saiu a saudade à rua
e eu deixei-a passear…
Pois se essa saudade é tua,
Como a posso cativar?
O querer bem não se prende,
nem possuir é amar.
O amor não se arrepende
de livremente se dar…
Nem qualquer graça teria
uma amizade qualquer,
um amor a uma mulher
sem a simples alegria
de se soltar na confiança
com que sente uma criança.
Dou-te uma mão a dizer que ninguém vive só para si.
Camilo Maria
Camilo Martins de Oliveira
