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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A força do ato criador

 

O Realismo da imaginação.

René Bertholoe a Nuvem com Superfície Variável III (1967)

 

‘Cada vez encontro mais relações entre o que faço e a realidade exterior.’, René Bertholo, 1958

 

Após uma breve e fecunda experiência informalista em finais dos anos cinquenta, René Bertholo (1935-2006) iniciou a partir de meados dos anos sessenta um universo de narração figurativa. Bertholo viveu durante alguns anos em Munique e em Paris (voltando definitivamente para Portugal em 1973), e aí estabeleceu contactos com as novas vanguardas, que permitiram a construção de uma obra baseada em experiências neo-figurativas. De facto foi já em Portugal que evoluiu para uma pintura de narração absurda, figurativa e que designou de realista. A importância do desenho como meio de expressão, neste conjunto de trabalhos, aproximou a imaginação do mundo real ao mundo concreto. As figurações que Bertholo pintava são designadas por inventários da realidade mas visavam alcançar efeitos que não são um espelho de uma situação social ou de costumes. Os inventários são realistas, segundo Bertholo, porque são uma interpretação da imaginação. Objectos e pequenas figuras povoam o espaço pictórico com uma obsessiva necessidade de preencher todo o espaço da tela – tal como se verifica na obra de Jan Voss. René expõe o seu pensamento múltiplo, indefinível, ilógico através de um desenho muito esquemático. Talvez a herança da action painting e do informal (através do trabalho de Pollock, Tobey e Twombly) tenha conduzido a uma acumulação de imagens, espalhadas por toda a tela, na ausência de centro e no preenchimento all over do quadro. Retirou também ensinamentos do automatismo psíquico como se de uma escrita se desenvolvesse, como se de uma paisagem se descrevesse e começou a fazer desenhos muito grandes cheios de pequenas coisas. Estes desenhos fazem lembrar uma espécie de banda desenhada. Signos dispersos, impossíveis de ordenar. O que conta é a memória e para Bertholo essa expressão saturada era o mais fiel modo da reconstituição do seu pensamento.  Foi a utilização sucessiva do desenho que lhe permitiu atingir o verdadeiro realismo e descobrir o sentido do mundo, através de um fazer manual, lento e único. 

A partir de 1966, René Bertholo iniciou a construção de modelos reduzidos (Beau Fixe, A noite e o Dia, Sol de Percurso Linear, Três Aspectos do Céu), pequenas máquinas com motor, recortadas em chapa de metal. Engenhos mecânicos dotados de movimento. O movimento tornou-se a expressão da temporalidade, entendida como repetição infinita de acções e ciclos, que em nada alteram o contexto onde se apresentam.

A ideia de movimento fascinou Bertholo desde os 17 anos – altura em que descobriu os filmes de animação do Norman McLaren. E tal como nos seus desenhos, as formas destes objectos mecânicos eram muito esquemáticas.

Os objectos perdidos, flutuantes que pintava como sendo inventários da realidade, tornam-se objectos mecânicos, que têm uma vida própria e eterna – tal como se a imaginação de Bertholo se materializasse e libertasse,  pois os objectos têm uma vida autónoma e independente e não precisam do espírito criador para se mover. São exactidão, ingenuidade, entretenimento e utilidade lúdica. Estes objectos assemelham-se a brinquedos, a paisagens/memórias portáteis que também se movem segundo ciclos lentos, permanentemente prontas a ser contempladas e prontas a ser consumidas. São pinturas literalmente vivas.

René dedicar-se-ia aos modelos reduzidos até 1975, ano em que retorna à pintura não abandonando mais este registo. A concretização do movimento, de início começa por ser repetitiva, porém Bertholo desejava aproximar-se de tal modo dos fenómenos naturais e imprevisíveis que ansiava conceber objectos de movimento totalmente aleatório. De facto, num dos últimos objectos de nuvens de superfície variável e movimento aleatório, construiu um chassis que não se vê de frente e que permite uma maior ilusão de flutuação.

Acerca da Nuvem com Superfície Variável III, Bertholo escreveu no Relatório de Trabalho de Janeiro-Março de 1969 (a propósito de um subsídio que beneficiou do Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian): ‘ As formas resultantes da sobreposição dos quatro elementos que constituem a nuvem são infinitas’. Através da série Nuvens, Bertholo concebe um programador aleatório que lhe permite gerir a indeterminação do movimento das formas no tempo (recortadas em chapa de alumínio), através de um dispositivo de interrupção e conexão da corrente eléctrica incorporado no motor. O modelo de Nuvens que se segue será aparelhado a uma chapa azul que fará de fundo, fazendo clara referência a um mundo infantil das formas recortadas e das cores vivas. 

 

Ana Ruepp

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