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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CONTRADIZ-SE AMOR, POR SER ETERNO E FUTURO…

 

Minha Princesa de mim:

 

Tanto quanto eu saiba, a loucura de Orlando foi tema de três óperas de Vivaldi, todas com libreto de Grazio Braccioli: duas Orlando Furioso ( a de 1714, durante muito tempo atribuída a Alberto Ritori, que compusera outra ópera com o mesmo título e libreto também do Braccioli, e que, aliás o Padre Ruivo levara à cena no teatro de Sto. Angelo , em 1713; e a de 1727, obra definitiva que, tal como a versão de 1714 se estreou no mesmo teatro veneziano) ; mais a Orlando finto pazzo, estreada no mesmo local, no mesmo ano de 1714, a 10 de Novembro, quatro dias depois da primeira. Mas enquanto o libreto das duas Orlando Furioso se inspira no poema épico de Ludovico Ariosto, o da Orlando Finto Pazzo baseia-se no Orlando Innamorato de Matteo Bocciardo. E há aí histórias engraçadas. Sabes que a epopeia de Ariosto é considerada uma espécie de crítica saudosa da literatura romanesca de cavalaria, assim como o Don Quijote do Cervantes, que aliás influenciou. Mas como encetou Ariosto esta obra? Dando, em princípios do sec.XVI, continuação à narrativa do conde Matteo Maria Boiardo, iniciada e inacabada em meados dos anos 80 do sec.XV, e que lhe fora encomendada por Ercole I d´Este, com instruções para descobrir, na antiguidade mítica, um antepassado dos d´Este, duques de Mântua e de Ferrara, que fosse da estirpe do troiano Eneias, fundador de Roma. Ariosto, leitor atento do Orlando Innamorato, foi retomando as personagens e o conto de Boiardo, quando estava ao seriço de um filho de Ercole I, o cardeal Ippolito d´Este, e irá designar Ruggiero e Bradamante, duas personagens da sua epopeia, como os antepassados heróicos da família d´Este. Orlando é sobrinho e cavaleiro de Carlos Magno, valoroso guerreiro que enlouquece ao descobrir que Angélica, a sua amada, se enamorou do soldado mouro Medoro. E é tal a loucura, que se atira ao mar e atravessa o estreito de Gibraltar nadando a caminho de África. Na ópera de Vivaldi  ( Orlando Furioso,de 1727), cujo libreto não segue de muito perto o poema de Ariosto, e mete novas maravilhas, personagens, magias e bruxedos, Orlando, quando enlouquece, incita os circundantes a cantarem com ele a célebre Folia di Spagna (ele não a menciona, mas conhece-se pela música que então entoa) que, dizem, é originalmente um dança portuguesa do sec.XIV… Mas se o tema central do Orlando Furioso de Ariosto é a loucura de amor, esta não é propriamente uma perdição, pois traz consigo também lucidez, generosidade e força. Tal como aoDon Quijote de Cervantes. O grande Erasmo, coevo daqueles e amigo de Damião de Góis e Thomas More, no seu Laus Stultitiae ou Encomium Moriae Elogio da Loucura), põe esta mesma a falar (Ipsa Stultitia loquitur) e assim Moria vai multiplicando citações de S. Paulo, tais como: Recebam-me como louco!… …Somos loucos por causa de Cristo!…  …Que,entre vós,aquele que se julgar sábio, se torne louco para ser sábio!… Até Deus seria louco: O que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens! E já alguém teria perguntado se Thomas Morus, o inglês, católico e humanista da Renascença  — sacrificado por Henrique VIII  –  autor da Utopia, ilha de imaginação e pensamento novo, descoberta por um navegador português, não seria, para Erasmo, o irmão de Moria (a Loucura)… Pois loucura foi também essa aventura por mares nunca dantes navegados, que um velho nas praias do Restelo condenou. Camões canta  –  como Ariosto e Cervantes e Erasmo e Morus, cada qual à sua maneira  —  essa força antiquíssima que é sopro sobre as velas da aventura e leva os nossos barcos até ao dantes nunca descoberto…. Todavia, nos caminhos do seu pensarsentir, nenhum deles nega a herança greco-latina da sua cultura, nem a força íntima da sua fé judeo-cristã, nem sequer o modo  —  que anseiam mudar, porque já o tempo  vai mudando  —  em que cavaleiros andantes se davam a uma causa.  Apenas querem dizer que, para que a antiquíssima loucura sobreviva, outra forma há-de achar que a torne viva. Hic et nunc, que o porvir a outros novos caberá. Meditava o português Luís de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança, /  todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades… Ligo sempre a primeira quadra deste soneto ao verso que começa outro, inspirado em Petrarca, que, muitos anos antes, também o pensoussentiu:Transforma-se o amador na cousa amada… E não deverá o cristão  –  que, na fé e na esperança, se deve ao amor  –  amar o futuro que desconhece e não lhe pertence? Sem ser cínico como o príncipe de Il Gattopardo, de Lampedusa, quando afirma que tudo deverá mudar para que tudo fique na mesma, pergunto se o amor não será sempre um risco assumido na liberdade da confiança, e nunca, nunca, uma teimosia sobre o que pretendemos ter alcançado e possuir… Se eu quiser conservar para mim  –   e conforme à circunstância em que eu mesmo me sinto conservado, o sopro desse amor que os sinais dos tempos me vão dizendo que está lá fora  —  não estarei a desmerecer da humilhação que Cristo a si chamou na sua cruz? Quererei permanecer em cativeiro? Ocorrem-me estes versos da elegia VI de Camões, que uma amiga portuguesa hoje ainda me lembrou: 

      Eu, Senhor, sou ladrão; tu, justo Rei;

      Pois como entre ladrões eu não padeço? 

      A pena a ti se dá do que eu pequei?

      Eu, servo sem valor; tu, sumo preço,

      em preço vil te pões, por me tirares

      do cativeiro eterno que mereço?

Assim se pôs o mundo às avessas. E  ensina a Loucura de Erasmo: O Sábio refugia-se nos livros dos antigos, e aí só aprende frias abstracções; mas o Louco, aproximando-se de realidades e perigos, ganha, penso eu, o verdadeiro bom senso.Dou-te, Princesa, uma mão cheia, mas sem qualquer loucura que, entre nós, pudesse parecer mal.

 

               Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

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