MARIA KEIL À BEIRA RIO
Memórias antigas! Ah! Duas crianças a refrescarem-se nos dias de verão. Que prazer extraordinário tirar os sapatos e chapinhar na borda do riacho, nas águas límpidas, a ver os pequenos peixinhos a passar, assustados, a ouvir as cigarras e a olhar o labor inusitado das formigas… E vem à lembrança, sempre, o conto da princesa que guardava patos… No entanto, a imaginação é fertilíssima. E lá está a espreitar um coelho, placidamente a ver os dois meninos. Em primeiro plano, as flores silvestres são verdadeiras, e dizem-nos que o painel está entre a realidade e o sonho. As duas crianças existiram, a artista eternizou-as, e nós lembramo-nos ali mesmo de fazer o que elas fazem.
Maria Keil, à medida que o tempo vai andando, torna-se uma das ilustradoras fundamentais do século XX português… O que Sophia é para o conto em Portugal é Maria para a ilustração. Aliás, falando da autora da «Menina do Mar», temos de lembrar também Matilde Rosa Araújo, e tudo o que fez para dar a língua no mais puro de si a todos os jovens leitores ávidos de bons motivos para voar…
E oiçamos um poema inesperado de Maria Keil:
Habito as distâncias
vivo dentro das distâncias
as tuas mãos, o teu rosto,
a claridade, que pelos teus olhos…
o mundo, que pelos teus olhos…
povoam as minhas distâncias.
Sabias?
Não. Ninguém sabe de ninguém os mundos
que cada um habita.
A partir desta imagem, podemos pensar um conto. E quem conta um conto acrescenta sempre um ponto. Como boa algarvia, Maria Keil sabia bem que a magia dos contos fantásticos é inesgotável!
CNC
