
Isabel de Portugal por Ticiano
INTERVALO
Galla Placídia Augusta tem, na história da gente real, uma grandeza tão mítica como a de Dido, rainha de Cartago, que Eneias desprezou para ir fundar Roma… Ou talvez maior, precisamente por ter sido real, no tempo e no modo, o seu sonho, o seu esforço, a sua coragem e devoção. Filha de Teodósio Magno, será por essa linhagem imperial – que sempre estimou acima de tratações, sucessos e desaires – filha e irmã, mulher de imperadores… e afinal mãe, só por essa linha de fidelidade, do último imperador do Império Romano do Ocidente, Valentiniano III, morto assassinado em 455. Digo-o último, sim, porque todos os outros que se foram registando depois, até Rómulo Augusto, destituído em 476, data “oficial” do fim de tal Império, foram surgindo de manobras, crimes e intrigas, sucessivas tentativas vãs de aguentar uma aparência de estado, já sem soberana linhagem nem a Virtus romana… Galla tinha duas forças: a do carácter teimoso e resoluto, e a da sua profunda fé e devoção cristã. Esta tê-la-á ajudado a aceitar casar-se com o visigodo Ataulfo e o romano Constâncio, e ainda a tratar e contratar com rivalidades romanas e ameaças bárbaras. A pertinácia, o faro político, ou sentido de Estado e permanência, lhe terão ditado o raciocínio e as decisões. O que, sempre, sempre, mais me tocou nessa história, eivada de intrigas e banalidades políticas, foi a possivelmente única vitória final de Galla Augusta: ela já não assistiu ao fim atroz do imperador seu filho, e fora antes finalmente inumada em Roma (junto a seu pai, é certo e significativo) , em vez de repousar no mausoléu que para si mandara edificar (e ainda hoje existe) em Ravena (na altura capital do Império). Mas, ainda que a título póstumo, viu a vitória do dogma da hipóstase das duas naturezas de Cristo, divina e humana, reunidas numa só pessoa, defendido pelo seu amigo, o papa Leão Magno ( que salvou Roma de Átila), no concílio de Calcedónia, em 451, um ano após a sua morte. Refiro este episódio da história teológica, porque Galla Augusta viveu com a obsessão da compatibilidade do divino e do humano, e vendo na pessoa de Jesus Cristo o sinal de Deus para o devir do Império Romano, a união da cidade dos homens com a cidade de Deus… Foi essa também a obsessão de Jerónimo Savonarola. Nenhum deles, com mil anos de distância, teria, penso eu, visões teocráticas da sociedade política. Tinham, isso sim, uma entranhada fidelidade, muito íntima, ao sentido da legitimidade. Para Galla Placídia, Roma deveria acolher, tratar, federar-se até, com os bárbaros que a cercavam e penetravam, desde e para que mantivesse a unidade que a linhagem imperial garantia, e que a fé nova do império, o cristianismo que o papa representava, necessariamente consagrava. Para frei Jerónimo, não havia outra linhagem que não a vontade democrática (que afrontava e tinha expulso de Florença a tirania dos Medici, e questionava os usos, abusos e costumes do papa Borgia, Alexandro VI), cabendo aos profetas lembrar ao povo a justiça que Deus de todos nós espera e reclama. Entre a princesa romano-bizantina de sangue e o frade mendicante nascido numa família de Ferrara, da qual pouco ou nada se sabe, tudo será diferença : a época e a circunstância, a categoria social, a inspiração das ideias e desejos, a motivação dos actos. E, todavia, passa por eles o mesmo sopro. Que lhes segredou que, se não houver fidelidade e abertura, rectidão e justiça, muito se poderá perder e talvez tudo, ou quase, esteja errado. A princesa morreu sem violência, só previu o que iria acontecer ao seu império, ao seu sonho e dinastia. O dominicano foi finalmente enforcado e queimado em praça pública. E, para que o povo não guardasse relíquias do profeta, lançaram ao rio Arno as suas cinzas. Menos de um século depois, Lutero proclamava, em revolta e oposição a Roma e a muitos príncipes, a reforma protestante que, profeticamente, Savonarola, pressentira crescendo no coração dos povos, mas ignorada por quem, como dever primeiro, deveria escutar os outros… Há quem teime em servir Quem (e cá me lembro do Quem do “Ano da morte de Ricardo Reis”) não possa morrer, como disse Sophia na sua “Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal” : Nunca mais a tua face será pura, limpa e viva, nem o teu andar se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida, nunca mais servirei senhor que possa morrer… Cito de cor – da memória do coração – ocorreu-me esse poema lindíssimo ao pensar em Carlos V. Creio que este imperador, mais ainda do que o Duque de Gandia, que o servia, e à imperatriz, poderia ter assim sentido a morte de Isabel de Portugal. Quiçá dois desastres íntimos – daqueles que põem à prova qualquer fé – terão abalado Carlos de Habsburgo, e levá-lo a abdicar, para se retirar no mosteiro dos jerónimos de Yuste: a morte da mulher tão admirada e profundamente amada, e a incapacidade de consolidar uma aliança política e de fé, numa Europa que as desavenças entre católicos e protestantes dividiam, e o cerco otomano ameaçava… É certo que derrotou e fez prisioneiro Francisco I de França – o tal que, contra ele, tentou alianças com forças da Reforma e com os muçulmanos – mas o sonho que da cidade de Deus tinha era mais largo e magnânimo, para que todos vivessem em paz uns com os outros e com o Senhor de todos. Era hispano-austríaco, amorosamente casado com uma portuguesa, mas nascera na Flandres, percebia as razões dos movimentos da Reforma e as contra-razões de Roma… Talvez tenha começado a morrer à morte de Isabel, quando se sentiu tão só com o seu cansaço. Os sonetos nº. 3, 4 e 5, de amor mordido, são convívios com estas personagens.
Camilo Martins de Oliveira
Ao amor que faz parte de todos os nós e faz me muito bem
Ruy Alberto d’Assis Espinheira Filho (Salvador BA 1942)
Um dos responsáveis pela sobrevivência do soneto após a dessacralização modernista e a ressacralização de 45, sua produção é escassa mas liricamente densa. Garimpados de seus livros, os exemplos abaixo compõem uma antologia panorâmica:
PRIMEIRO SONETO DA PERMANÊNCIA
Esta saudade bate no meu peito
como um vento encrespado de remorsos,
tardes mansas, manhãs iluminadas,
meigos seios nascentes, bicicletas
em torno do jardim. Esta saudade
queima e me embriaga. E bebo mais.
E bebo tudo e já não resta nada
no universo a não ser a embriaguez
desta saudade. E eis que me sinto absinto
e não me encontro em mim. Estarei morto?
Não estou morto: estou é lá, aqui
na distância, no centro deste parque
que gira e gira o mundo. Aí estou
e fico imóvel neste carrossel.
SONETO DO CORPO
Corpo de sol e mar, não me pertences.
Não me pertences — e, no entanto, em mim
ondeias e marulhas num sem fim
de amavio. E cintilas, e me vences,
e me submetes — eu, o siderado
a teus pés. Eu, o pobre. Eu, o esquecido.
Eu, o último. O morto — e o renascido!
Tudo por teu poder, ó iluminado
corpo de brisa e pólen, ventania
e pedra! Harmônico e contraditório
e presente e alheio, flama e pena.
Feito de vida, enfim: desta alegria.
Em si. Porém, em mim, campo ilusório
em que a memória pasce — e me envenena.
SEGUNDO SONETO DA PERMANÊNCIA
Só eu te vejo andar por esta rua,
à sombra de árvores já abolidas,
ao som dos idos canários, ao perfume
de jardins que há muito se exalaram.
Só em meus olhos é manhã marinha
o teu olhar (os outros vêem a tarde,
talvez a noite, iludidos pelas
cinzas dos dias que em ti pousaram).
Cinzas. Mas não aqui, não nesta rua
(no alto-falante, rosa e violino…)
por onde sempre passas e clareias
meu peito — ah, todo branco, iluminado
de ti, amplo de nuvens, luas cheias,
como se fosse o peito de um menino!
SONETO DO AMOR E SEUS SÓIS
Eram teus olhos de água, olhos de água
ensombrada de folhas, eram teus
olhos de água marinha, eram teus olhos
de água límpida, ou turva, eram teus olhos
de água cintilante de tão negra,
eram teus olhos de água luminosa
como só umas raras dessas brisas
chamadas alma, eram os teus olhos
— e eis que teus olhos ainda são, que sempre
outros olhos e os mesmos: o amor
diverso e idêntico no azul do peito
a amanhecer-me, a moldar-me as
asas de mergulhar no chão profundo
e patas de galgar os altos ventos.
SONETO DA PAIXÃO
Todos os meus caminhos se derramam
nas fragas deste amor e me confinam
nesta ternura fera encovilada
em onde era um pulsar de apenas vida
e agora é furacão sobre palmeiras,
não de quando sabiava a minha infância
— porém de um outro lindo, uma vertigem
voluntária do sol e da loucura.
Oh este amor, todas as graças, todos
os látegos, o corpo não suporta
tanto, mas fujo à queixa e sou imenso
e sou muito e bonito nesta chama.
Tenho pena das pedras, das areias
e do esplendor de Deus na Sua glória.
João Felgar
Mais Sonetos, alguns de amor e de grande tristeza e paixão
SONETO DO INELUTÁVEL (a João Carlos Teixeira Gomes)
Primeiro foi, senhora e dona, esta.
Todo o horizonte do amor cercado.
Isto até o momento em que, pasmado,
viu ele aquela adentrando a festa.
Mas então, afinal, não era esta
a verdade do amor! Iluminado,
lançou-se — em samba, valsa, tango, fado —
ele aos meneios dessa nova festa!
Rodopiou, feliz, junto daquela,
até sentir o aroma dessa outra
que por ele passou, roçou, tão bela
como nenhuma. Menos aqueloutra,
que só não é mais amorosa e bela
do que a que é, e há de ser sempre, a outra.
SOSÍGENES COSTA (a Hélio Pólvora)
Teu rosto de cerusa no retrato
nada me diz do sol na ravenala,
muito menos de aroma, vinho, gala:
é só um moço ali, de fino trato,
que, constrangido, posa. Mas (sou grato
a Mnemósine), se te ouço a fala
dos versos, se abrem fogos de Bengala
trazendo-me, de ti, outro retrato.
Mas não um rosto: a Cor como uma fonte
jorrando anjos, pavões, a cerofala
do luar, dragões, poentes de Belmonte.
Maga poesia que tua alma exala
e que só há de deixar-me a voz e a fronte
quando eu morrer perdendo o mundo e a opala.
SONETO DA NEGRA (a Maria da Paixão)
A cor da suavidade é que a modula.
Nela se abisma a luz e se revela
incapaz de alterar nada daquela
penumbra que a atrai, absorve, anula.
Nessa paisagem que coleia, ondula
como um rio, ou o mar (e é dela e ela),
um vento violento me desvela
um animal que me trucida e ulula.
O tom da suavidade não se altera,
eleva um canto cálido e me diz
que são garras de amor, e é bela a fera.
E assim, em carne rubra e cicatriz,
entrego à cor profunda que me espera
estes despojos em que sou feliz.
ANTONIO BRASILEIRO
Rumina um sonho: gado sonolento
entre as ondas que o vento faz no pasto,
que é vasto como o gesto desse vento
amplo como o horizonte vasto, vasto.
Há deuses nas colinas desse vento
e nas fontes profundas desse pasto
— que são, assim, mais verdes e mais vastos
que quaisquer pastos, horizontes, ventos.
Rumina um sonho — e sonhos nesse sonho,
que sonham outros mais. Na tarde amena,
tudo é sonho de deuses e rebanhos.
E ele se deixa navegar, sereno,
nos vastos pastos ventos horizontes
e, denso, de alma toda, escreve um poema.
SONETO DA LUZ DE MAIO (a Alessandra Leila)
Neste maio que finda, o sol é grande
como em Sá de Miranda. Do alto dia
desce a luz como um riso, uma alegria
e vem ecoar nas pedras da varanda.
E até em mim ecoa essa alegria!
Mesmo em mim, que já a última esperança
de cor e luz deixara ir-se na dança
das chuvas, dos trovões, da ventania.
Vem ecoar em mim e me conduz
para a vida, de novo, e para a calma
que desce dela mesma, dessa luz
que pousa sobre tudo e tudo acalma
neste maio que finda e que reluz
nas pedras da varanda e em minha alma.
SONETO DA CHUVA E DA VOZ (a Miguel Sanches Neto)
Desde que despertei está chovendo.
Aliás, desde antes, pois, ainda dormindo,
claramente escutei chuva caindo
longe, por trás de um sonho: meu pai lendo,
para mim, “Hora Absurda”; ainda estou vendo
seu rosto em luz antiga. Quase findo
é o dia, agora, e a chuva caindo, caindo…
E em minha alma meu pai ainda está lendo.
Não é, como no poema, um ouro baço
que chove aqui: é só água do outono
que o calendário traz nos fins de março.
E a voz prossegue. E, num sonho sem sono,
me consola de mim neste cansaço
de outonos falsos, sombras, abandono.
SONETO DE UM AMOR
Quando chegou, nem parecia ser.
Agora é isto, este pulsar violento
a rir à toa, a crepitar no vento,
e este oceano, e este amanhecer,
mais estas comoções de anoitecer,
mais estes girassóis no pensamento,
raio fendendo a alma (lento, lento…),
e esta estranheza de dizer e crer,
e este ácido pássaro no peito,
e uma ternura ardendo na ferida,
e um silêncio, e um fragor, e o céu desfeito
por sobre tudo, e a lua comovida
chorando um choro cândido, perfeito
a esta tortura do esplendor da vida!
João Felgar