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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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SONETOS DE AMOR MORDIDO

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Sissi (Foto E. Rabending, 1867).

 

6. DE FRANCISCO JOSÉ A SISSI 

 

          Feri-te sem querer e não pretendo,

          sequer, de ti obter qualquer perdão:

          se ofensa houve, foi sem intenção;

          ou te sentes magoada não o sendo…

 

          Não sei se sentes ou te queres só,

          só sei querer-te bem e não consigo

          descanso nem perdão para comigo,

          no aperto rijo e fixo deste nó…

 

          Em gesto repetido a minha mão

          te entrega a flor primeira que te dei

          no baile em que foi teu meu coração…

 

          Amei-te por seres tão livre e viva

         –  eu que era só imperador e rei –

          e assim te guardei, mesmo fugitiva…

         

Imaginei este soneto em resposta a um poema que Sissi escreveu em Ischl – estância de veraneio da família imperial austríaca – em 1866, treze anos depois do baile em que o fado ditou o destino da que era então uma menina de dezasseis anos. O acontecimento é longamente relatado em carta, ao seu ministro, do embaixador de Napoleão III junto da corte de Viena de Áustria, de que aqui traduzo um passo:

Para a noite da chegada do Imperador, a arquiduquesa Sofia (mãe de Francisco José) reuniu algumas pessoas da sociedade de Ischl, para oferecer a seu filho a distracção de um baile improvisado. As princesas da Baviera foram naturalmente convidadas. O Imperador mostrou pressa em acorrer ao serão, e convidou a mais nova (Sissi) para a contradança que termina todos os bailes vienenses e na qual é costume o cavalheiro oferecer um raminho a outro par do que o seu. O Imperador deu a flor à sua prima. Esta derrogação aos usos espantou todos os assistentes. Mal nos tínhamos retirado quando o Imperador declarou a sua mãe que era Isabel a sua escolha final, que a desposaria ou não se casaria. Acrescentou que queria que a jovem princesa fosse consultada, mas não influenciada. E que esperaria vinte e quatro horas pela resposta. Resumo a complexidade da situação decorrente – e o prenúncio de duas trágicas peregrinações interiores – registando três reacções circunstantes ao sim, por escrito, que Isabel da Baviera confiou a sua futura sogra. Às oito da manhã de 19 de Agosto de 1853, a arquiduquesa Sofia recebe o bilhete de Sissi e entrega-o ao filho…e este corre para a residência da futura sogra dele e abraça efusivamente a sua prometida; antes, ao receber o pedido, a futura imperatriz teria exclamado “como poderia não amar esse homem? mas que ideia pensar em mim, que sou jovem e insignificante! farei tudo o que puder para felicidade dele, mas serei capaz?” ; Sofia ia repetindo a quem quisesse ouvi-la que “ninguém manda passear um Imperador de Áustria!”. Isabel nunca aceitaria de bom grado a interferência de uma sogra autoritária na sua vida familiar, e terá sentido a obrigação da consumação do matrimónio como uma violação legal e politicamente necessária. Tentará, com Francisco José, escapar à primeira e recuperar a segunda por um amor vivido a dois. Interessar-se-á por causas sociais e políticas, procurará na natureza, na equitação, em viagens que configuram longas separações, esquecer o que a magoa. Terá muitos admiradores e apaixonados, não cometerá adultério algum. Representava os homens como burros, mas guardou sempre – como burro primeiro e lindo do seu coração  –  o imperador Francisco José.

Traduzo livremente o poema de Sissi que acima referi:

 

          Deixa-me só, deixa-me sozinha,

          nada me será doravante melhor:

          É impossível tudo ter,

          e eu não me contento de restos.

          Talvez te amasse demais

          e não soubesse esconder-to.

          Tornaste-me mortalmente triste,

          mas não te lo levo a mal,

          sempre me acolheste e mimaste…

          Tinhas um fim em vista

          e quando lá chegaste,

          deixaste-me partir:

          já te não servia.

          Ponho-me firmemente a caminho.

          Voltarei um dia?

          Talvez então te diga

          as mágoas amargas que me deste…

Os poemas de Sissi foram publicados pela Osterreichische Akademie der Wissenschaften, e os seus direitos de autor revertem a favor do Alto Comissariado para os Refugiados, à frente do qual está o português António Guterres.

 

Camilo Martins de Oliveira

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