9. COM MESTRE ECKHART
Inventaste a morte ao nascer do dia:
só à luz faz sentido a escuridão
e só batendo morre o coração.
Não viesse o sol e a noite acabaria…
Pois, sem Ti, o nada nada seria:
não há ausência possível sem presença
e não há luz senão a Luz imensa:
diz Paulo, ao ver-Te Luz, que nada via…
Diz Agostinho então que, vendo nada,
Te contemplará a alma, despojada
do desejo de tudo conhecer…
Pois só cegos às coisas acessórias
E libertos de todas as memórias,
íntimo em nós Te poderemos ver…
O sermão 71º de Mestre Eckhart, místico dominicano alemão do sec. XIII/XIV, comenta o passo do livro dos Actos dos Apóstolos que, na versão latina da Vulgata, reza assim: Surrexit autem Saulus de terra apertisque oculis nihil videbat… Paulo levantou-se do chão e, de olhos abertos, não viu nada. Diz o pregador germânico: Este enigma tem quatro sentidos. Um desses sentidos é de que, quando se levantou do chão, de olhos abertos, e nada viu, esse nada era Deus; pois que, quando viu Deus, lhe chama um nada. Outro sentido: quando se levantou, não viu nada senão Deus. Terceiro: em todas as coisas não viu nada senão Deus. Quarto: quando viu Deus, viu todas as coisas como um nada. Mais adiante, recorrerá ao Cântico dos Cânticos: Prestem atenção! É um segredo que a alma diz no Livro do amor: «Toda a noite procurei no meu leito aquele que a minha alma ama e não o encontrei»… E acrescenta: Ela diz «Procurei-o toda a noite» Não há noite que não tenha uma luz; mas ela está encoberta. O sol brilha na noite, mas está encoberto. Brilha durante o dia e encobre todas as outras luzes. Tudo o que procuramos nas criaturas, tudo isso é noite… …Tudo o que não é a prima luz, tudo isso é escuridão e noite.
Volto ao Cântico dos Cânticos, traduzo 3, 1-4, muito livremente:
Na noite do meu leito procurei
o muito amado do meu coração.
Procurei-o, mas foi a busca em vão…
Ora me ergo, e a Cidade correrei,
pelas ruas e praças chamarei
por quem não vejo e o meu coração ama,
pois não o achei na minha própria cama!…
Aos guardas da cidade perguntei:
Homens de armas, vistes o meu amigo,
aquele que quero guardar comigo?
Mas por mim nenhum deles o agarrou
Só meu coração em mim o encontrou,
secreta luz da morada esquecida,
onde por minha mãe fui concebida!
Camilo Martins de Oliveira
