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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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SONETOS DE AMOR MORDIDO

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9. COM MESTRE ECKHART
 

 

          Inventaste a morte ao nascer do dia:

          só à luz faz sentido a escuridão

          e só batendo morre o coração.

          Não viesse o sol e a noite acabaria…

 

          Pois, sem Ti, o nada nada seria:                                 

          não há ausência possível sem presença

          e não há luz senão a Luz imensa:         

          diz Paulo, ao ver-Te Luz, que nada via…

 

          Diz Agostinho então que, vendo nada,

          Te contemplará a alma, despojada

          do desejo de tudo conhecer…

 

          Pois só cegos às coisas acessórias

          E libertos de todas as memórias,

          íntimo em nós Te poderemos ver…

         

O sermão 71º de Mestre Eckhart, místico dominicano alemão do sec. XIII/XIV, comenta o passo do livro dos Actos dos Apóstolos que, na versão latina da Vulgata, reza assim: Surrexit autem Saulus de terra apertisque oculis nihil videbat… Paulo levantou-se do chão e, de olhos abertos, não viu nada. Diz o pregador germânico: Este enigma tem quatro sentidos. Um desses sentidos é de que, quando se levantou do chão, de olhos abertos, e nada viu, esse nada era Deus; pois que, quando viu Deus, lhe chama um nada. Outro sentido: quando se levantou, não viu nada senão Deus. Terceiro: em todas as coisas não viu nada senão Deus. Quarto: quando  viu Deus, viu todas as coisas como um nada. Mais adiante, recorrerá ao Cântico dos Cânticos: Prestem atenção! É um segredo que a alma diz no Livro do amor: «Toda a noite procurei no meu leito aquele que a minha alma ama e não o encontrei»… E acrescenta: Ela diz «Procurei-o toda a noite» Não há noite que não tenha uma luz; mas ela está encoberta. O sol brilha na noite, mas está encoberto. Brilha durante o dia e encobre todas as outras luzes. Tudo o que procuramos nas criaturas, tudo isso é noite… …Tudo o que não é a prima luz, tudo isso é escuridão e noite.

Volto ao Cântico dos Cânticos, traduzo 3, 1-4, muito livremente:

         

          Na noite do meu leito procurei

          o muito amado do meu coração.

          Procurei-o, mas foi a busca em vão…

          Ora me ergo, e a Cidade correrei,

 

          pelas ruas e praças chamarei

          por quem não vejo e o meu coração ama,

          pois não o achei na minha própria cama!…

          Aos guardas da cidade perguntei:

 

          Homens de armas, vistes o meu amigo,

          aquele que quero guardar comigo?

          Mas por mim nenhum deles o agarrou

 

          Só meu coração em mim o encontrou,

          secreta luz da morada esquecida,

          onde por minha mãe fui concebida!      

         

Camilo Martins de Oliveira

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