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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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SONETOS DE AMOR MORDIDO

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Clara e Robert Schumann


20. KREISERLIANA

 

Ufano, tão feliz, enchi o peito

do amor com que os teus olhos me quiseram

preso assim; e cativo me fizeram

de ti, para sempre, quase perfeito…

 

E quase sempre fui quase sozinho

e assim tu quase só cheia de mim…

E foi ouvindo não ao nosso sim

que juntos nos pusemos a caminho.

 

E neste quase ser, digo ao piano

como toureiro em lide, em mano a mano,

que, sem talvez, na vida há sim e não…

 

E tudo dança e sofre, tudo passa:

é sempre fugidia uma ameaça

e fortaleza a nossa imperfeição… 

 

P.S. – Quatro anos levaram Clara Wieck e Robert Schumann para conseguirem licença de casamento. Perante a ciumenta e feroz oposição do pai dela, tiveram de recorrer ao tribunal, que decidiu em favor deles. Casaram em 1840, numa igrejinha da aldeia de Shönefeld, perto de Leipzig. Durante esses anos de separação forçada, em que o pai Wieck ia obrigando Clara a viajar pela Europa, dando concertos ao piano, que tão excelentemente tocava – concertos em cujos programas ia incluindo composições do seu amado – Schumann viveu alternadamente períodos de entusiasmo e esperança, como de depressão e quase desespero, compondo muito, sobretudo música para piano. As Kreislerianatestemunham esses altos e baixos, esse galope de sentimentos de vários tons, tempos e ritmos… Escreve ele, em carta a Clara, de Maio de 1838:

 Reparei em que a minha imaginação nunca está tão viva como quando ansiosamente virada para ti. Foi assim ainda nestes últimos dias, e, na expectetiva de carta tua, compus o suficiente para encher volumes. Música extraordinária, ora louca, ora grave e sonhadora. Arregalarás os olhos quando a decifrares. Vê tu bem, tenho por vezes a impressão de que acabarei por estoirar de música, de tal modo as ideias se empurram e fervem em mim quando sonho com o nosso amor. … Tocas às vezes as minhas Kreisleriana? Em certas páginas, está lá um amor mesmo selvagem.

 A atestar essa fúria fiel e forte está o próprio título dessas composições, inspirado na personagem de Kreisler, o mestre de música, de espírito e gestos muito agitados, dos contos de Hoffmann. Afinal sempre igual a si mesmo. 

 

Camilo Martins de Oliveira

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