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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

59. O ABSURDO EM CAMUS

 

Albert Camus, filósofo do absurdo, defendia que levamos vidas costumeiras, entediantes, monótonas e repetitivas.   

Até que um dia nos interrogamos: a vida faz sentido?

Percebeu que era impossível responder à pergunta: porque estamos aqui? 

Diz que fazemos as coisas de modo rotineiro, como Sísifo, uma personagem mitológica grega condenada pelos deuses a repetir sempre a mesma ação, por toda a eternidade: empurrar uma grande pedra até ao cume de uma montanha, para que voltasse a cair até ao vale, onde tinha de ir buscá-la e voltar a empurrá-la até ao cimo. 

Este trabalho cansativo e monocórdico, era um castigo ou punição para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses.

O absurdo de que fala Camus não é o de a vida não fazer sentido, mas, exatamente, a pretensão de procurar um sentido para as coisas.

O absurdo, que se opõe à razão, sensatez e bom senso, deixa de sê-lo a partir do momento em que aceitemos e deixemos de pensar que há coisas que dão sentido à vida. Quem aceita o absurdo vive bem com ele.

Em antinomia, segundo Camus, só se suicida quem, previamente, quis dar sentido à vida.

Que a vida seja absurda não significa cair numa apatia profunda.

Mesmo reconhecendo vivermos num abismo sem respostas, não devemos render-nos ante a vida.   

Temos de enfrentá-la em toda a sua incompreensibilidade.   

De ser criativos e inovadores na formulação de porquês geradores de outros porquês. Vivendo a vida em pleno, hidratando e renovando a monotonia, a repetição e o tédio. Mesmo que, por escolha pessoal, acreditemos num ente sobrenatural, exterior à natureza, a que a investigação científica não pode chegar.

Compreender essa verdade é aprender a viver.


02.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

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