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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR


‘Mon oncle’, entre o controlo e o imprevisível.


Na era da máquina o improviso, o imprevisível e o acaso só são possíveis se existe o erro e a falha. Senhor Hulot é a personagem que nos ensina a ver o mundo quotidiano como o espaço primordial onde a comédia acontece. Os modernistas da primeira vanguarda identificavam-se com a figura do comediante, pela sua excentricidade, criatividade e imaginação e pela sua incapacidade de integração numa sociedade que preconizava valores burgueses, materialistas e extremamente racionalistas.

No livro ‘PlayTime. Jacques Tati and Comedic Modernism.’ (2020) de Malcolm Turvey lê-se que o filme ‘Mon Oncle’ (1958) de Jacques Tati encerra em si o debate entre o mundo altamente controlado e o mundo do impulso irresistível.

Os filmes de Tati analisam a modernização de França a seguir à Segunda Guerra Mundial – nomeadamente no que diz respeito à uniformização da arquitetura, à expansão da cultura de consumo, à mecanização da rotina e à alienação provocada pela tecnologia (Turvey, 2020). E ‘Mon Oncle’ defende as mais pequenas liberdades individuais, os prazeres mais simples da existência, a mais básica alegria de viver.

Mr. Hulot é um homem comum que, ao simplesmente viver, desafia a ordem das coisas, desafia o mundo da máquina e por isso o mundo da família Arpel. Hulot, sem ser intencional, personifica o homem-criança, que se tenta escapar do mundo mecanizado. E por isso, inadvertidamente, Hulot aparece como o pensador livre, que vive do inesperado, da criatividade e do não conformismo – a sua presença, por si só, afirma vitalidade.


“Tati also associates the Arpels with other putatively bourgeois attitudes that have long been mocked by the modernist avant-garde. As historian of the bourgeoisie Peter Gay has argued, “and elemental urge… toward the rationalization of life, away from… unresisted impulse” became a major hallmark of bourgeois culture in the ninetenth century, and it manifested itself among other ways in the “rejection of the direct expression and public gratification of bodily needs” (…) The Arpels are obsessed with control, and one form this takes is their concern with cleanliness.”, 
(Malcolm Turvey, 2020, p.193)

O mundo mecânico conduz todos os nossos movimentos e comportamentos automatica e ordenadamente. Em ‘Mon Oncle’, o mundo da família Arpel revela uma obsessão pelo controlo. É um mundo burguês e priviligeado que se descreve por valores relacionados com o autoritarismo, o materialismo, o consumismo e o conservadorismo e que se manifesta através do desejo pela visibilidade, artificialidade, rapidez, eficácia, limpeza, rigor e rigidez. E a casa dos Arpel é usada para exibir um determinado estatuto de vida, não para ser vivida e não para ser meio de expressão – a sua arquitectura manifesta um entendimento meramente artificial acerca das primeiras experiências do movimento moderno:


“Arpel’s house seems more like a bricolage of improperly understood stylistic elements associated with 1920s domestic modernist architecture that have been chosen because they are fashionable. Indeed Tati’s artistic collaborator, Jacques Lagrange (…) described the Arpels’ home as a “montage”, in an “architectural pot-pourri” consisting of features he had seen in a variety of magazines and cut and pasted together.”
 (Malcolm Turvey, 2020, p.193)

Ao longo do filme, os únicos sinais de vitalidade da casa acontecem assim que se manifesta o erro ou improviso (sempre que um objecto aparece fora do sítio, ou sempre que um objecto deixa de funcionar). O espaço intocado é aprisionador.


“Tati protested that he was not criticizing modern architecture in his films and he objected that Mon Oncle “is not about the house”: “I am sure if a young couple were married and went to live in that house they would be happy… It is not the architecture I am complaining about in My Uncle, it is the way that people use it that is the problem.”
 (Malcolm Turvey, 2020, p.185)

Em contraste, o espaço onde Senhor Hulot habita deixa-se apropriar pela vida. É um espaço democrático, onde o espectador é até livre de escolher para onde olhar (na praça do mercado, Hulot aparece muitas vezes misturado no fundo). Hulot, não é um reaccionário. É até uma personagem discreta, que combina as virtudes do passado com as vantagens do presente, do momento e do agora, e através da sua presença, o espaço rígido e estático transforma-se – ao também ter capacidade de incluir o movimento livre do corpo, a singularidade de cada pessoa e até ser capaz de adquirir uma personalidade específica. Hulot contraria a uniformização, o autoritarismo, o anonimato e a falta de comunicação que domina o ambiente mecanizado: “I’m always… trying to defend the simple man.” (Malcolm Turvey, 2020, p.188)

Em ‘Mon Oncle’, Tati contraria a estandardização e a uniformização inerente à vida moderna e à cultura de massas através da sua atenção ao único e ao singular (cada personagem tem uma maneira própria de ser). Tati não rejeita o progresso tenta simplesmente humanizá-lo.


“Tati was no cultural determinist, if by this is meant believing human beings to be mere products of their environments. Quite the contrary, for him, the environment reflects the attitudes of its inhabitants, which is why, when his characters embrace what he saw as an authentic, ludic approach to life, even the most austere modern setting becomes a playground.”
 (Malcolm Turvey, 2020, p.210)


“My job is not to criticize”, he persisted, but instead “to bring a little smile” to people’s faces.”
 (Malcolm Turvey, 2020, p.177)

 

Ana Ruepp

Comentário sobre “A FORÇA DO ATO CRIADOR

  1. O que é a cultura ? é um ato criativo de todos, não é singular, não, somos todos nós.

    Hoje cada um tem apelidos, verdade ?

    Mas de onde surgiu esse apelido, quem o criou ? eu não, mas alguém o criou nesta época, se fizeram no bem, não sei, todos dizem que tem apelidos, mas será que o criador ou criadores estavam bem cientes do que fizeram, então vamos a casos concretos, pode ser ?

    Caza de Leça, a beneficio da Ordem de Malta, apparece Doações

    Dos Pereiras ja fe tocou em outros lugares, o que Na Era de 1221, que he anno de 1193. em o Martim Martinz com feus filhos ven- fotz. de ao Abbade de Loruão Dom Afonfo húa herdade no lugar de Saas, & neta efcritua età o nome de Pero Calema

    VARONIA DE LA FAMILIA DE Velasco, que procediò de la de las Afturias, y vatias liheas en que fe dividiò, conftituyendo las Cafas de los Condestables de Castilla
    Cavalleiro Ruy de Mello -, Senhor da casa de Mello , o qual em vida do mui alto
    Simão da Cunha cafou com Dona Ignes de Mello, filha de Duarte de Mello, & fenhora da Cafa de Povolide, & Catro-Verde

    Calou Afonfo Ermiges duas vezes, a primeira na cafa dos Bargançoés … dito) or via de feu filho Nuno Sanches á cafa de Barbofa tão illuftre no tempo antigo

    cafa Simoens foi filho de Infante; Semhor Dom Tevtonio de Braganza
    Cafa do Infantado, feita pelo Senhor Rei Dom Joaõ o IV.
    Fidalgo que foi da Casa, e neto de D. Thomaz Velasques Sarmento.
    Cafa de Vimaranes. & firment illo refiamêto/imulórillo placito.
    Cafou com Dona Cofiança Afonfo de Cambra, que era da cafa dos de Riba de Vifella
    fuccefaó principal entrou por femea na Cafa dos Limas,”deixando o appellido, fe perdeo
    Conde D. Pedro. D. Tomas Tam. Cafa de Miranda (8)
    Conde D. Pedro faz menção em alguns lugares. He efte apelido hum dos illutres,& etendidos que ha em Efpanha,que comprehende muitas cafas grandes & titulares em Portugal,& Catella Dellas e tra ta em hum dos Capitulos do liuro feguinte,com ocafiaõ do cafamento q Martim Sanches filho delRey Dom Sancho Primeiro fez na cafa de Catro.

    Portanto isto é uma pequena amostra, e dentro destas existia um apelido ou sobrenome, mas hoje o criador mudou as regras do jogo, porquê ? E era importante saber qual era o sobrenome e fiquem bem sentados.

    Um bem haja,
    João Felgar

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