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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


Simone Weil sugere que para se poder aceitar o outro tal como é, é preciso que nunca se faça parte de circunstância alguma.

“Sinto que me é necessário, que me é prescrito, que me encontre só, estrangeira, exilada em qualquer meio humano, sem excepção.”, Simone Weil In Espera de Deus

Simone Weil revela que a capacidade de se fundir em todo o lugar e em todas as pessoas, implica que não se faça parte de meio nenhum. Viver separado, desanexado, descentrado, fora e nunca se sentir em casa deve fazer parte da nossa condição humana. Só assim, talvez, segundo Weil, possa existir a possibilidade da pessoa encontrar uma sólida posição no universo e de entender com mais claridade a realidade no mundo.

Ao não querer ser adotada por ninguém, nem fazer parte de um ‘nós’, Weil abre a eterna disponibilidade de o ser humano se sentir sempre fazer parte de qualquer lugar, todo o tempo. O querer pôr-se de lado, associa-se à vontade de querer desaparecer, para se poder “…fundir com que meio humano for, por onde passe”. Weil coloca-se, então, numa posição de total abertura, banalidade, e atenção em relação aos outros. A capacidade de mistura, conjugação e imersão implica não pertencer e assim se apagam as diferenças que existem entre o eu e o mundo. 

Weil sugere que para se poder aceitar o outro tal como é, é preciso que nunca se faça parte de circunstância (condição, particularidade, lugar) alguma. Pertencer a um grupo, a uma comunidade pode afastar as outras vidas diferentes que se cruzam. Weil explica que fazer parte pode fabricar uma falsa imitação do divino e pode insinuar uma enganosa ideia de excecionalidade. As influências sociais, para Weil, têm a capacidade perversa de aproximar e confundir, sob as mesmas palavras, o mais puro com o mais horrível. 

As vidas que estão para lá, ocultas, atrás do que se vê, só são acessíveis se a experiência do mundo for anónima, marginal e secundária – o eu transporta todas as histórias daqueles que o rodeiam, para sempre, mesmo que nunca mais se encontrem. Por isso, a busca de um sentido de verdade só talvez se dê nos contornos de uma superfície, distante de qualquer centro.

“Entendo o patriotismo como o sentimento que se concede a uma pátria terrestre.”, Simone Weil In Espera de Deus

Weil não deseja, por fraqueza e vulnerabilidade, colocar-se à mercê de uma vontade coletiva. Por ser extremamente influenciável nas coisas por contágio, receia ficar ao arbítrio da maior desumanidade. 

Weil anseia, sim, estar exposta à constante mudança e à contínua falta de controlo. E colocar-se numa posição solitária, de perda de si, permanentemente sem-teto, desabrigada porque talvez só assim se possa ver quem realmente se é, e permitir-se em relação aos outros a possibilidade de uma aceitação.

 

Ana Ruepp

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