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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

  


O espaço exterior é o eco da expansão do espaço interior.

“I look outside myself, and the tree inside me grows.”, R. M. Rilke

Gaston Bachelard em The Poetics of Space, ainda no capítulo “Intimate Immensity” explica que Baudelaire, na sua poesia, se refere a vastidão como sendo um conceito que não pertence ao mundo objetivo. A palavra, vastidão, quando usada é um vocábulo que evoca pausa, silêncio, unidade, respiração, imperturbabilidade. De facto, vastidão é o eco dos lugares mais ocultos e desconhecidos do ser. É uma abertura para um espaço ilimitado: “With it, we take infinity into our lungs, and through it we breath cosmically…” (Bachelard 1994, 197)

Para Bachelard, poetas tais como Baudelaire, ajudam no constante contentamento do olhar, que na presença de um objeto familiar, permitem a extensão da esfera interior e particular.

“Space, outside ourselves, invades and ravishes things: 
If you want to achieve the existence of a tree, 
Invest it with inner space, this space

That has its being in you. Surround it with compulsions, 
It knows no bounds, and only really becomes a tree

If it takes its place in the heart of your renunciation.”, R. M. Rilke

Objetos, espaços e lugares precisam de ser impregnados de imagens construídas na esfera interna e intima – caso contrário não existe ligação, nem vínculo. Na verdade, eu e objeto são um só. Para ultrapassar o seu limite, o objecto ou o espaço precisa do sujeito para transmitir as suas imagens. O objeto contém o sujeito e o sujeito contém o objeto. Juntos tomam o lugar um do outro. 

Bachelard esclarece que, quando o sujeito sabe que um objeto ou espaço do mundo é reflexo de imensidão, isso significa que é o próprio sujeito que está à procura da sua essência. O eu e o mundo têm assim um forte vínculo metafísico: os dois espaços – interior e exterior – completam-se e são uma plenitude.

É o espaço íntimo que descodifica e abre o mundo. É este espaço que permite ampliar, dilatar e alargar o mundo exterior. Ao dar valor a um espaço está-se a conceder ainda mais espaço do que aquele que existe objectivamente. O espaço exterior é o eco da expansão do espaço interior: “… may all matter achieve conquest of its space, its power of expansion over and beyond the surfaces…” (Bachelard 1994, 202-3)

Deste modo, para Bachelard, é a imensidão que une o espaço íntimo e o mundo exterior – e assim que a solidão humana se aprofunda, os dois infinitos tornam-se idênticos. E é através desta dinâmica e desta coexistência de espaços que se manifesta a consciência do próprio existir.

Ana Ruepp

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