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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

A verdadeira arquitetura manifesta-se como um ponto do universo que permite compreender e dar sentido.

 
    Revista OASE #90 

A verdadeira arquitectura existe sempre que se manifesta uma experiência aberta, única, nova, central e individual. 

No texto “Half an Hour of Silence.” Christophe Van Gerrewey (OASE # 90. 2025) afirma que a ocorrência de verdadeira arquitetura só poderá acontecer se houver contraste direto com o contexto. Algo diferente deve acontecer – algo desconhecido, algo que quer ser conhecido mas que resiste ao conhecimento total. Desta maneira, tudo o que é fundamental e abrangente fica envolvido. Por isso,  a arquitetura é uma experiência acima de tudo relativa à existência precisamente porque diz respeito ao ser humano em continuidade e em movimento no espaço.

Christophe Van Gerrewey sublinha que a arquitetura é uma experiência individual. No verdadeiro sentido, é uma experiência que não se reproduz, porque o que é importante é a singularidade de cada espaço e lugar e a maneira como isso se revela em cada indivíduo. Cada ser humano está sempre em busca de algo extraordinário e a verdadeira arquitetura poderá ser o caminho para essa procura. Em solidão e em silêncio a arquitetura revela uma exceção. E é precisamente a descoberta, e não aquilo que constitui espectáculo, que determina a importância da arquitetura em cada ser humano. Para Van Gerrewey, a verdadeira arquitetura é capaz de silenciar tudo resto onde apenas só o silêncio interior é audível – o silêncio do cosmos, o silêncio divino, o silêncio de meia hora.

A verdadeira arquitetura, escreve Van Gerrewey, permite a abertura a inúmeras possibilidades, porque anteriormente não existia algo assim de semelhante. A verdadeira arquitetura é algo que se formou num lugar específico e determinado e que trouxe novas ligações e novas capacidades. A verdadeira arquitetura é singular, é criada através de uma impressão que reverbera no tempo e em cada um que experiência a sua condição e o seu limite. A arquitetura abre a possibilidade para aquilo que não existia antes e forma uma vida que nunca tinha sido antes vivida – uma vida que não é descrita pelos costumes e hábitos dominantes, uma vida que possibilita o desapegar de certas condições, conceitos e regras.

“Architecture – it might as well be a design paper project or even a concept – turns the client and each spectator temporarily into a Houdini who gets provided by the means to detach himself from the straitjacket of the well-known conditions of laws and prescriptions.”

Van Gerrewey revela que a arquitetura traz à atenção tudo aquilo que muitas vezes não se quer enfrentar ou reconhecer. A verdadeira arquitetura tem a qualidade de apresentar com claridade contradições, desejos, perdas, preocupações e camadas não visíveis da existência humana. É uma construção que quando executada tem a capacidade de iluminar cada ser humano através de uma série de acções que só a cada indivíduo diz respeito. É um programa único, individual e irrepetível que reflete aquilo que é mais importante para cada ser. 

Lê-se ainda no texto, que a arquitetura não se torna verdadeira ao referenciar-se em modelos clássicos, nem na precisão técnica e nem em preferências estéticas. Para Van Gerrewey, a verdadeira arquitetura manifesta-se sim através do questionamento constante de todas as referências conhecidas. Questionar o que é conhecido evita criar fórmulas e impede ditar diretivas. A arquitetura não pode  deixar de ser ambígua, porque não deve ser obrigada a nada externo. Deve sobretudo reformular tudo aquilo que já é conhecido, de modo a que a experiência possa ser totalmente nova, única e nunca antes pensada. Van Gerrewey explica que o passado e toda a história é importante somente no sentido em que se pode verificar que cada projeto é singular e irreproduzível – a verdadeira arquitetura tem de ir contra a generalidade, tem de ir contra a formatação e ir além da criação de padrões e de relações óbvias. 

Van Gerrewey declara ainda que a verdadeira arquitetura nunca está completa, nem terminará jamais. A verdadeira arquitetura distingue-se do seu contexto e do resto do mundo através dessa abertura, desse vazio e desse interstício que cria de modo único, pessoal e intransmissível. No caos infinito do cosmos, de repente, abre-se um espaço de articulação e de organização, que pode ser projetado no seu contexto mais próximo, e que pode permitir uma compreensão ainda que momentânea do mundo. Só a verdadeira arquitetura se manifesta então como um ponto do universo que permite compreender e dar sentido. A arquitetura dá a ver a infinitude do cosmos mas ao mesmo tempo a insignificância, as limitações e as imperfeições humanas.

“Of course, thanks to this aspect architecture tries to transfer old religious, sacred, holy, mystical, spiritual cosmic claims to a disenchanted world.”

Por isso, na opinião do autor a verdadeira arquitetura é uma manifestação singular daquilo que é mais sagrado. É um ponto absoluto e fixo no centro do universo. É um intervalo e um meio que permite que a vida de cada ser humano seja única e irrepetível.

Ana Ruepp

3 comentários sobre “A FORÇA DO ATO CRIADOR

  1. Ex.ma Senhora Dra Ana Ruepp
    Obrigada pela sua crónica!
    Ao ler a sua frase “a arquitectura dá a ver a infinitude do cosmos mas ao mesmo tempo a insignificância, as limitações e as imperfeições humanas.”, não podemos deixar de nos perguntar, sobre tudo o que há a melhorar, e. g. ir ao encontro do nosso tempo e procurar a verdade tão, tão maltratada, actualmente. Iniciar e construir uma casa ou uma vida sobre a mentira é não querer viver. Também é imprescindível reconhecer e assumir as nossas limitações. E a tal propósito, deixo a frase de Wilhelm Reich: “A verdade é que todo o médico, sapateiro, mecânico ou educador, que queira trabalhar e ganhar o seu pão, deve conhecer as suas limitações.”

  2. Ex.ma Senhora Dr.a Ana Ruepp
    Gostaria de dizer ainda que de acordo com Van Gerrewey, como refere, “a arquitetura é um programa único, individual e irrepetível que reflete aquilo que é mais importante para cada ser”. Esta frase e muito mais do que diz está, no meu humilde modo de ver, em relação direta, com o que foi dito, na última crónica do Senhor Professor Anselmo Borges. O nosso programa começa por ser o nosso genoma que é um resumo codificado da informação necessária à criação de um ser. Temos que considerar, no entanto, que cada civilização introduziu no genoma e epigenoma dos seus cidadãos, características muito diversas, a grande maioria delas benéficas, outras menos boas que alguns aceitam cegamente e mais que isso, aproveitam-se delas até para realizar o mal e a guerra. Por exemplo, o livro de Josué refere, repetidas vezes, a prática de exterminar totalmente os habitantes de outras cidades: “Josué tomou também todas estas cidades e respe
    tivos reis e passou-os ao fio de espada…segundo a ordem de Moisés, servo de Yahvé”.
    A tristeza é que me parece que temos cidadãos do mundo ainda nesta fase?? Como pode alguém não reagir e não ter sentido crítico em relação a esta literatura??
    Termino com as suas palavras “Através do tempo, é a arquitetura manifestação singular daquilo que é mais sagrado que permite o encontro – livre, experimental e verdadeiro – do indivíduo consigo próprio, com outros indivíduos e com o mundo que o rodeia.”

  3. O blogue Raiz e Utopia existe para incentivar o pensamento e a reflexão. Ficamos muito gratos pelo facto de os nossos leitores estarem cientes disso mesmo. E o diálogo entre fé e ciência é crucial. Muito agradecemos mais este comentário. Continuem!

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