Annie Ernaux, no seu diário, explora a complexa relação entre o indivíduo e o espaço urbano em constante mudança.
Imagens do filme ‘J’ai aimé vivre là’ (Régis Sauder, 2021)
A cidade contemporânea está em todo o lado e em lado nenhum: “Wright declarou que a cidade do futuro estaria em todas as partes e em nenhuma, e que ‘será uma cidade tão profundamente diferente da cidade antiga, ou de qualquer cidade de nosso tempo, que talvez nem sejamos capazes de reconhecer seu advento como tal.’”. (Frampton 2000, 230)
Cergy-Pontoise, no livro Journal du Dehors de Annie Ernaux, corresponde à descrição de Frank Lloyd Wright em relação à cidade do futuro. Para Ernaux, Cergy-Pontoise surge como um lugar indefinido, incapaz de ser reconhecido como um todo delimitado.
No artigo “Coming to terms with the future: The experience of modernity in Annie Ernaux’s Journal du Dehors.” (2010. French Cultural Studies, Volume 18, Issue 1(Feb): 125-136.), Edward Welch clarifica que o processo de urbanização é o sinal físico mais óbvio da expansão do capitalismo. Para Welch, urbanização ao ser a constante produção de novo e maior espaço através da transformação do território, é a condição essencial para que o capitalismo vingue.
O planeamento urbano que Haussmann concretizou para Paris, no séc. XIX, tinha já como objetivo principal desenvolver os meios de circulação necessários e eficientes de pessoas e bens. Ao desimpedir o movimento na cidade, Haussmann acreditava que iria fomentar o seu crescimento económico. Paul Delouvrier ao desenvolver o Schéma directeur d’aménagement et d’urbanisation de la region de Paris (1965) reconhecia igualmente que para promover a eficiência, a produtividade e o crescimento económico da região de Paris havia que melhorar e acelerar a circulação de pessoas e bens. Por isso, o sistema de comboio RER (Réseau Express Regional) apresentou-se como sendo o elemento fundamental e agregador deste plano.
As Villes Nouvelles, da qual Cergy-Pontoise faz parte inserem-se neste esquema diretor concebido por Paul Delouvrier. A visão de Delouvrier abrangia toda a região circundante a Paris.
Edward Welch explica, no seu texto, que tal como Haussmann, a grandiosidade do plano de Delouvrier também provocou reações diversas. Escritores e realizadores de cinema, por exemplo, tentaram descrever e abordar este esquema urbano que transformou profundamente aquele território e modificou para sempre a vida quotidiana das pessoas. Sentimentos de alienação, de constante movimento, de não pertença, de fragmentação, de segregação e de metamorfose são comuns a quem experiência estes novos territórios.
Annie Ernaux, no seu diário, explora esta complexa relação entre o indivíduo e o espaço urbano em constante mudança. Como já foi mencionado, é a força moderna capitalista que obriga à rápida e eficaz circulação de pessoas e bens. E Cergy-Pontoise, aos olhos de Ernaux, representa em simultâneo o absolutamente novo e o absolutamente desconhecido – que é fruto da máxima fluidez da modernidade, do movimento que não pára, da impersonalidade, do anonimato, da atomização do ser humano e da auto-referência. As observações fragmentadas de Ernaux são um reflexo muito aturado dos efeitos do totalmente novo e dos sentimentos agudos que estes efeitos despoletam. Ernaux vê-se forçada a viver naquela utopia e naquele bocado de cidade que foi desenhado para o futuro. Welch, com o seu artigo deseja entender, através de Annie Ernaux, qual é a condição daquela cidade. A cidade, ao ser nova e remodelada, afeta e dá forma a um novo ser humano.
“La Ville Nouvelle sous le soleil de mars. Aucune épaisseur, rien que des ombres et de la lumière, parkings plus noir que jamais, béton éblouissant. Un lieu à une seule dimension. J’ais mal à la tête. Impression que cet état me permet d’entrer dans la substance de la ville, rêve blanc et lointain de schizophrène.” (Ernaux 1993, 47)
Cergy-Pontoise, para Ernaux, é uma evidência, um forte testemunho do esforço do ser humano em impor estritas regras de vivência. A constante referência à cidade não como Cergy-Pontoise mas como ‘La Ville Nouvelle’ sublinha o facto deste lugar ser impessoal e anónimo – há sentimentos de perturbação, de opressão e de privação de toda a memória associados a este lugar.
Edward Welch escreve que no diário de Ernaux, Cergy-Pontoise não tem pontos de referência – parece ter propositadamente o poder de fazer perder os que aí vivem. Ernaux é assim absorvida e engolida num mundo artificial, denso, confuso e delimitado por estruturas feitas por humanos. A cidade nova aparece deste modo como uma visão sobrenatural, fora de escala e sem história, com edifícios monumentais e enigmáticos espalhados por um território imenso.
Ernaux sublinha o poder que um espaço tem em determinar hábitos e modos de ser. Existe um ritmo e um fluir próprio que, rápido e eficiente, dita as deslocações pendulares e os centros comerciais. São movimentos estranhos, novos e impessoais que acentuam os sentimentos de desorientação tão característicos desta cidade nova. E tal como uma narrativa desconexa, Cergy-Pontoise surge no diário de Ernaux em fragmentos. A descontinuidade acentua o sentido de indefinição e de não pertença.
O desenho da nova cidade não depende da ligação de um lugar a outro, é sim moldado pelos movimentos que vão de um ponto a outro. Os espaços são por natureza concebidos em descontinuidade e provocam um fracionamento da vida daqueles que os utilizam. O quotidiano está dividido em blocos de atividade – circular, habitar, comprar, trabalhar – entre os quais o indivíduo se desloca de carro ou de transporte público mas quase nunca a pé. A vida de cada individuo é assim pulverizada e determinada pelos sistemas e redes desenhadas, constituídas pelo RER, o centro comercial, o hipermercado, o metro, o comboio e o carro.
Através de Welch consegue-se entender que o livro de Ernaux representa uma revelação da condição de ‘La Ville Nouvelle’ e da sua nova ordem. Ernaux expõe um sistema que destrói e substitui as formas urbanas tradicionais – de proximidade e convívio – pelo comboio e pelo centro comercial. A intimidade forçada existente nas viagens de transporte público assume a forma de uma observação silenciosa e intrusiva. Welch dá a mostrar que Ernaux não está condenada a viver naquele lugar, mas está limitada e tem de se adaptar forçosamente.
Mas ao longo do livro de Ernaux toma-se consciência que Cergy-Pontoise é também um lugar que junta, agrega, funde, que leva à descoberta e que não depende das estruturas que historicamente definem a paisagem urbana. Um lugar em que o alheio e o irreal se tornam central. O estranhamento e o choque, em que Ernaux por vezes se vê confrontada, não está relacionado com sentimentos de nostalgia – até porque a cidade do passado, pode ser para a escritora, tão ou mais estranha que a cidade nova. Está, sobretudo, relacionado pela imposição deste mundo urbano novo como condição irrefutável.
Sendo assim, Edward Welch descreve o livro de Annie Ernaux como um processo de adptação da condição da Ville Nouvelle. É através da condição da cidade nova, que Ernaux descobre os lugares sem passado e sem história, a conveniência do anonimato, e a aproximação de pessoas que vêm de sítios tão diversos.
« J’ai aimé vivre là, dans un endroit cosmopolite, au milieu d’existences commencées ailleurs, dans une province française, au Viêt-nam, au Maghreb ou en Côte-d’Ivoire – comme la mienne, en Normandie. » (Ernaux 1993, 8)
Ana Ruepp
Ex.ma Senhora Doutora Ana Ruepp
Obrigada pela sua crónica. Os meus olhos detiveram-se na frase do livro de Ernaux “Um lugar em que o alheio e o irreal se tornam central” e ocorreu-me contar-lhe o meu real testemunho de dona de casa na cidade portuguesa:
Há cerca de 30 anos, andava intrigadíssima por a carne me diminuir na panela, enquanto o caldo aumentava na mesma. Em amena e pacata conversa durante o almoço, com um veterinário, ele esclareceu-me: “Isso não faz mal à saúde, é que os produtores dão anti-diuréticos aos animais para a carne pesar mais”. Bem, concluí eu, andamos a comer carne com….
Agora, confesso que truques semelhantes e muito mais exuberantes que este, me acontecem a todas as horas. Nas grandes superfícies, tenho que comprar: pomposas embalagens de cartão ou até de porcelana, de que não preciso, apenas o seu conteúdo me é necessário, e pagar portanto o valor correspondente; fruta embalada, que à chegada a casa, verifico que cerca de metade, a do interior da embalagem claro, é para deitar no lixo.
Quando vou à caixa para efetuar o pagamento, fazem-me ainda ofertas para mais umas compras variadas e.g. uma revista, uns bombons, a lotaria…. Brinco com as empregadas, que embora caladinhas a maioria das vezes, uma ou outra diz-me: “olhe minha senhora, ainda somos nós que os temos que os ir buscar à prateleira”.
Cansada destas andanças, resolvi começar a ir fazer compras nos múltiplos estabelecimentos de comércio local. Não sei, se é maior ou menor, o surrealismo:
Ovos, em que acabei por verificar, a sua gema branca. Estupefação! Ovos de gema branca! Guardei para mostrar à família. “Pois é, mãe, é mesmo branca. Branquinha! Sabes, há outros que dão produtos às galinhas para que a gema fique bem amarelinha!
Carne, 30 euros por Kg. Surpreendida, interrogo o talhante. Responde-me: “Oh minha senhora, esta carne é portuguesa.” E eu, cá para mim, será que terei que voltar a comprar carne da Polónia?
Não vou alongar esta exposição a companhias de gaz, eletricidade, telecomunicações, chamadas telefónicas, mensagens, ecrans bloqueados por publicidade, etc, etc.
Era mesmo só para lhe dar um exemplo prático e verdadeiro da vida na cidade em Portugal.