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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

O cinema pode recuperar a verdade e a beleza do mundo. 

  
    Imagem do filme Le Rayon Vert (Eric Rohmer 1986)

No texto “Le Celluloid et le Marbre” escrito em 1955, Eric Rohmer defende um cinema em que a espiritualidade revela-se através de caminhos tortuosos e imprevistos e de momentos inesperados. Neste texto, Rohmer acredita que o cinema é uma invenção material capaz de dizer outras coisas que até então eram impensáveis de exprimir. Aparentemente, o cinema é a forma de arte mais perecível de todas, no entanto, Rohmer explica que a sua ‘base de emulsão’, de que deriva o celuloide, e cuja fragilidade antes se temia, orgulha-se por resistir à corrosão do tempo mais do que o mais duro mármore de Paros (da escultura e da pintura grega pouco resta e as tonalidades da pintura impressionista já estão gastas e por isso Rohmer acredita que o filme – o celulóide – tem a capacidade física de ser o testemunho eterno da civilização humana). O filme é assim algo palpável e que se bem conservado pode permanecer e existir durante muito tempo. 

Rohmer afirma que o cinema não é, nem pode ser visto como um rival das outras artes. É antes um revelador, pois permite um olhar renovado sobre o mundo. O cinema não só dá a ver, mas também tem a capacidade de nomear e de designar. O filme ativa assim duas formas de arte: a pintura e a poesia. Por um lado, a pintura através dos sentidos reproduz a forma material do mundo. Por outro lado, a poesia usa signos que são palavras e desvia-os do seu significado quotidiano de maneira a dissimular a verdade. 

Rohmer acredita que o cinema liberta da nomeação, pois a beleza de qualquer fenómeno da natureza e do mundo torna supérfluo qualquer artifício estilístico. Tem a capacidade de ter poesia intrínseca – até nos gestos mais banais se transportam significados. E não é um artifício de adição ou de qualquer outro processo externo de aproximação arbitrária. O cinema revela harmonia pré-estabelecida e manifesta o paralelismo constante entre os fenómenos de diversas ordens naturais: vegetal e humano; sólido e liquido; espiritual e material. O cinema apresenta a ideia de um universo hierárquico e ordenado com vista a um fim último. Por trás do que o filme mostra (e que está para lá dos fenómenos reais) está um princípio espiritual. 

Noel Herpe na conferência “Eric Rohmer, un cinéphile en liberté” afirma que existe em Rohmer uma certa angústia em relação ao materialismo e por isso usa o cinema para chegar a uma transcendência. Herpe explica que Stromboli (Rosselini ) é uma referência essencial que transforma e cria o estilo de Rohmer – na procura pela transcendência na imanência, na ausência, no vazio, no deserto, na solidão e no silêncio. 

Para Herpe, nos filmes de Rohmer, a transcendência não se prevê – é, na verdade torcida, desviada, deslocada. Mas pode existir e ser concretizada através do cinema, porque para Rohmer, o cinema é a única arte que permite recuperar a beleza do mundo. 

Herpe declara que o texto “Le Celluloid et le Marbre”, ao analisar as artes do seu tempo – a pintura, a arquitetura, a música e a literatura – Rohmer descreve o cinema como a única arte capaz de libertar todas as outras artes da sua perda de adesão do espírito àquilo que é verdadeiro. Todas as artes, exceto o cinema, encerram-se numa celebração de subjetividade que as separa do ser humano e da humanidade na sua plenitude. O cinema ao ser uma arte simultaneamente clássica e realista é capaz de devolver a beleza e a harmonia do mundo. 

E segundo Herpe, a reflexão sobre a metáfora é igualmente central em Rohmer. Para Rohmer, a metáfora é uma figura de estilo que tem muito valor na literatura, e que consiste na evocação por equivalência. A metáfora para Rohmer é a fraude de dizer, é o engano da linguagem. E por isso, a referência a esta figura de estilo é um dos temas do seu cinema – e está relacionada com a ideia de que a linguagem é débil para conter todo o ser e toda a história. 

Rohmer admira os filmes que se abstêm de interpretar, que se contentam em mostrar e onde a subjetividade e o domínio do criador é mantido tão discreto quanto possível. Rohmer acredita que a mestria de um cineasta se exprime através da sua ausência. O cinema é a afirmação do carácter exterior e objetivo da realidade – Rohmer defende que a ideia de exterioridade documental como sendo ainda mais importante do que a ideia de objetividade ou de interioridade literária. 

Segundo Herpe, Rohmer capta sobretudo o vazio das personagens, a ausência do seu pensamento. Os temas rohmerianos estão mais relacionados com o abandono, o deserto, o nada e o insignificante. O cinema de Rohmer não deseja elevar-se sobre as suas personagens, mas sim estar no meio delas – sem nunca as julgar, mostrando-se por vezes até confuso ou perdido. Rohmer anseia pelo desvanecimento, pela discrição, pois só assim poder-se-á ver e dar a conhecer as personagens de perto, tal como são.

Herpe clarifica que o horizonte de Rohmer é a procura pelo insignificante, de onde poderá brotar o sentido e também o sublime. Há sim a procura por um ideal que se exprime através do materialismo, da representação – um ideal que aparece a partir da pura observação da matéria. Porém Rohmer utiliza a insignificância e a banalidade como uma espécie de derrota e de ausência de sentido para trazer ao de cima o sublime. 

Na opinião de Herpe, esta é, deste modo, a singular aposta cinematográfica de Rohmer: a exterioridade pura, a relação especular que o indivíduo tem consigo próprio na solidão (no qual se transforma no próprio objeto de contemplação), a continuidade espacial, as conversas triviais, a derrota do significado, o desvanecimento na insignificância, a apoteose do nada, a adoração da banalidade, o misticismo da monotonia que trará de volta o sublime – e que aparecerá por acaso. Para Herpe, este é o grande paradigma rohmeriano, a derrota da vontade criadora para ver aparecer algo sobre o qual o ser humano não tem qualquer controlo. E o cinema é o sistema, é o veículo que permite ao cineasta o acesso à representação da totalidade, da homogeneidade e da continuidade do espaço e que dá acesso a essa misteriosa espiritualidade.

Ana Ruepp

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