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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A TEMPESTADE DAS BENÇÃOS

  


1. Penso que para ninguém faz sentido casar por um período determinado de tempo. É perfeitamente claro que não há casamentos a prazo, ele é para a vida toda: “até que a morte nos separe.” O que se passa é que a vida é o que é e pode acontecer que de facto tenha um  termo, podendo mesmo chegar a um ponto em que a separação pode ser até obrigatória — quando há violência, por exemplo, e a educação dos filhos está em perigo. 

Nestas circunstâncias, como aliás tinha escrito Bento XVI quando era apenas o professor Joseph Ratzinger, desde que tenham sido  satisfeitos todos os deveres de justiça em relação com o primeiro casamento, por exemplo, no caso de haver filhos, e se há um novo amor, com verdadeiro  compromisso  na dignidade e na fidelidade cristãs e se os filhos são educados na fé  cristã, já me aconteceu dar uma bênção e admitir esses casais à comunhão. Aliás, Francisco já deu orientações para estes casos.

Fui durante muito tempo professor de Antropologia Filosófica, e hoje é sabido que há homossexuais. Porque  é que não hão-de ser acolhidos? Assim, na sequência do seu casamento civil, já dei, com todo sentido de responsabilidade, uma bênção, numa celebração em família, a um casal de lésbicas, pessoas cristãs, com o sentido da responsabilidade, dedicadas ao trabalho generoso pelos outros, no cumprimento do dever. Na celebração, prometeram e juraram amor nas horas boas e nas horas más, respeito e fidelidade até à morte, e a graça de Deus foi invocada para as suas vidas em comum. É claro que para mim não foi um sacramento no sentido litúrgico-canónico,  mas nem por isso deixou de ser um sacramento  —  Santo Agostinho falou em dezenas de sacramentos —, no sentido mais profundo da palavra: um sinal visível da presença e da actuação de Deus.


2. Estando a Igreja a caminho da celebração no próximo mês de Outubro da segunda sessão do Sínodo dos Bispos, com voz e voto também de leigos e leigas, precisamente sobre a sinodalidade da Igreja, constituiu uma surpresa para quase todos a publicação no passado dia 18 de Dezembro da declaração Fiducia supplicans (Confiança suplicante), um texto assinado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e aprovado pelo Papa Francisco, autorizando os bispos, os padres e os diáconos a abençoar ”casais em situação irregular”, como os divorciados recasados e os casais homossexuais. É sobretudo a admissão da possibilidade da bênção dos casais do mesmo sexo que tem levantado um clamor de críticas.

Foi e é uma tempestade, com padres e bispos a recusar dar essa bênção e até com cardeais a considerar Fiducia Supplicans um documento “erróneo, herético, blasfematório”.

Não há de modo nenhum razão para essas críticas, como não se cansa de repetir o cardeal Víctor Fernández.  Mas a questão tem particular relevância na África  onde a homossexualidade é interdita em 32 países e nalguns o simples facto de se declarar gay  pode levar à prisão. O prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, que mostra compreensão para casos como este, não se tem cansado em  desfazer equívocos.

Fica aí uma síntese da entrevista bem esclarecedora  Religuil:  Vdora rizando os padasal de homossexuais, de crssoas do mesmo sexo.e aprovado pelo Papa Francisco autorizando os pad a  Religión Digital. À pergunta: “abençoa-.se as pessoas ou também os casais”, respondeu: “A Declaração diz até à exaustão que há um só matrimónio (homem-mulher, indissolúvel, etc). Diz que esse é o único contexto adequado das relações sexuais. Diz que se deve evitar as bênçãos ritualizadas que poderiam levar à confusão. Parece-me estranho que se possa interpretar mal um texto tão clássico. Explica que se abençoa o casal, essas duas pessoas que se apresentam, mas não a união em si mesma. Vê-se que é um tema que provoca urticárias.” O que responde aos bispos que dizem que a Declaração é inoportuna, desnecessária (já em 2021 se tinha falado do tema), que defrauda? Resposta: “Em 2021  dizia-se que só se podia abençoar os indivíduos separadamente. Aqui, diz-se que na realidade podem estar os dois juntos, porque este tipo de bênçãos pastorais, não rituais, não pretendem validar nada. Por outro lado, o texto nunca fala de abençoar “a união”, coisa que se exclui com base na doutrina tradicional da Igreja, mas se abençoa essas duas pessoas que estão em casal, e pede-se para esse casal saúde, trabalho, paciência, e que possam viver cada vez com maior fidelidade ao Evangelho.” Com uma oração semelhante a esta, esclareceu noutra ocasião:  “Senhor, olha estes teus filhos, concede-lhes saúde, trabalho, paz, ajuda mútua. Livra-os de tudo o que contradiz o Evangelho e concede-lhes viver segundo a tua vontade. Amém.”


3. Sabemos que há homossexuais, trans e outros. E impõe-se tratar essa realidade com naturalidade, e todas as pessoas são dignas de respeito, atendendo inclusivamente ao que sofreram ao longo dos tempos.

Neste contexto, pergunto: quando um casal de homossexuais, na verdade da dignidade, sem relativismo moral, sem confusões nem exibicionismo, pede uma bênção, não é uma bênção para a sua união? Então, como ficou dito, não se trata de um sacramento? Respondo, citando o jesuíta Juan Masiá: “Toda a vida da Igreja é sacramento como participação no Sacramento Radical que é Jesus Cristo, Sacramento do encontro com Deus… Na união civil de baptizados e a bênção eclesial (não canónica, mas eclesial) de casais ‘”irregulares”, pode haver autêntico sacramento (em contexto eclesial, no melhor sentido da palavra).”


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 13 de janeiro de 2024

5 comentários sobre “A TEMPESTADE DAS BENÇÃOS

  1. Obrigada pelo seu texto Sr. Padre e Professor Anselmo Borges. Penso que a Igreja me considera casada, embora eu me tenha divorciado civilmente. Tive sempre a maior compreensão dos sacerdotes, mesmo no que se refere à confissão e comunhão.
    Custa-me muito, contudo, ver, por exemplo, homossexuais que são homens ou mulheres, maravilhosos seres humanos, e que, por falta de aceitação da família, nem a esta, podem apresentar o seu companheiro ou a sua companheira. Estou convicta que estas bençãos contribuem para a felicidade tanto desses casos como das suas famílias.

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