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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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A Vida dos Livros

A VIDA DOS LIVROS

  

De 30 de março a 5 de abril de 2026

Mark Carney, Primeiro Ministro do Canadá, proferiu um discurso antológico sobre a importância das potências médias no mundo contemporâneo, nos Encontros de Davos deste ano. Pela importância comentamos esse texto.


Num momento muito difícil, em que os princípios fundamentais da justiça e da dignidade humana são subvertidos, em que o Direito Internacional é posto em causa e desrespeitado, parecendo prevalecer a lei do mais forte e o primado da barbárie, é importante ouvir a voz da humanidade e da equidade, da cultura de paz e do direito. Infelizmente, parecem esquecidas as vozes serenas e firmes que exigem o respeito do Estado de direito e da solidariedade humana. “Todos os dias, somos lembrados de que vivemos numa época de rivalidade, entre grandes potências. Que a ordem baseada em regras tende a desaparecer. Que os fortes agem de acordo com a sua vontade e que os fracos sofrem as consequências. Este aforismo de Tucídides apresenta-se como inevitável, como uma lógica natural das relações internacionais que se reafirma. Perante esta constatação, os países têm uma forte tendência para seguir o movimento e permanecer em bons relacionamentos. Adaptam-se. Evitam conflitos. Esperam que este conformismo lhes garanta segurança. Mas não é assim.”

É revoltante o que se passa nos dias de hoje. O bombardeamento do centro histórico de Lviv no ocidente da Ucrânia, numa zona onde a presença russa é reduzida, a destruição de igrejas históricas classificadas como património da humanidade pela UNESCO, a afetação de monumentos históricos no centro de Teerão, a morte de centenas de crianças, a cegueira que leva a atingir muitos milhares de civis inocentes em hospitais, escolas ou recolhimentos de pessoas desprotegidas deixam-nos perplexos. Os exemplos multiplicam-se. Estamos a pagar severamente por erros, atos de guerra e crimes contra humanidade, que ficam impunes. E há uma estranha cumplicidade entre os vários protagonistas nos diferentes campos. Não cabe aqui enumerar culpados, mas pôr todos perante as suas responsabilidades. Para a guerra acabar é preciso pôr termo aos ressentimentos e às acusações mútuas. Só a via diplomática e política pode apresentar um caminho de solução. Não haja ilusões.

“Quais são então as nossas opções?” – pergunta Mark Carney. “Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio intitulado Poder dos Sem Poder. Nele, fazia uma pergunta simples: como é que o sistema comunista conseguiu manter-se? A sua resposta começa com a história de um vendedor de frutas e legumes que, todas as manhãs, coloca um cartaz na sua montra: ‘Trabalhadores do mundo, uni-vos!’ Ele não acredita disso. Ninguém acredita. Mas ele coloca o cartaz, mesmo assim, para evitar problemas, mostrar a sua cooperação, manter um perfil discreto. E como todos os comerciantes de todas as ruas fazem o mesmo, o sistema continua a funcionar. Havel chamava a isso ‘viver na mentira’. O poder do sistema não vem da sua veracidade, mas da vontade de cada um agir como se fosse verdade. E a fragilidade vem da mesma fonte: assim que uma única pessoa deixa de agir daquela maneira, assim que o vendedor de fruta e legumes retira o seu letreiro, a ilusão começa a desmoronar-se. Chegou a hora de as empresas e os países retirarem os seus letreiros”.

Chegado a este ponto o governante recordou que até há pouco os países prosperaram graças a uma ordem internacional baseada em regras. Havia previsibilidade e proteção, e daí o respeito. Sabíamos, porém que a ordem era ilusória. Que, mais tarde ou mais cedo, os mais poderosos iriam ignorá-la, quando ela lhes não conviesse. Assim, o direito internacional era aplicado consoante a identidade do acusado e da vítima. A ficção era útil. Havia rotas marítimas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e mecanismos de resolução de conflitos. Contudo esse compromisso deixou de funcionar. Vivemos um tempo de rutura e não de transição. Primeiro, Putin julgou poder ocupar rapidamente Kiev, substituir o poder, e submeter um país soberano, reconhecido internacionalmente. Depois, entre mil peripécias, Trump reentrou em cena, a querer dominar de tudo um pouco: o Canadá, a Gronelândia, a Venezuela, o Irão, o gofo Pérsico – esquecido de que prometera a paz ucraniana em dois dias, e alimentando a ficção de ter ganho oito guerras de alecrim e manjerona, para poder ganhar o prémio Nobel da Paz… Contudo, aquilo a que assistimos é uma guerra mundial em fragmentos, como disse o Papa Francisco, entre crises financeiras, sanitárias, energéticas e geopolíticas. E as grandes potências começaram a usar a integração económica como meio de pressão, os direitos aduaneiros como alavanca e a infraestrutura financeira como meio de coerção, contando com a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento. As instituições multilaterais com as quais as potências médias contavam (a OMC, as Nações Unidas ou a COP) para a resolução dos conflitos estão enfraquecidas. Os países precisam, assim, de reforçar a sua autonomia estratégica na energia, na alimentação, nos minerais críticos, nas finanças e nas cadeias de abastecimento. Quando as regras já não protegem, vem o salve-se quem puder. Mas um mundo isolado tende a ser mais pobre, mais frágil e menos sustentável. Em lugar do velho método supostamente satisfatório, as potencias hegemónicas procuram diversificar-se. Recorrem a mecanismos de proteção e multiplicam as suas opções, assentes na capacidade de resistir a influências externas. E é mais fácil investir na mera resistência em vez de construir uma defesa forte. As normas comuns reduzem a fragmentação e podem beneficiar todos. Importa encarar a nova situação e agir em conformidade. Mais do que erguer muros cada vez mais altos, impõe-se a maior ambição. “Os canadianos compreendem que a conceção tradicional e tranquilizadora que tínhamos de que a nossa localização geográfica e as nossas alianças nos garantiam automaticamente prosperidade e segurança já não se sustenta”. Importa, no fundo, seguir uma estratégia baseada no que Alexander Stubb chamou de “realismo baseado em valores”, combinando pragmatismo e princípios. Em suma: soberania, integridade territorial, proibição do uso da força, respeito pela Carta das Nações Unidas e pelos direitos humanos. O progresso é gradual, os interesses divergem, a partilha de responsabilidades é necessária.


Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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