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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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ANDRÉ BRUN INOVADOR

 

Nesta sucessão de referências cronológicas, sobretudo baseadas em autores que marcaram a história do nosso teatro, evocamos hoje André Brun, pois é relevante a importância que assumiu na tradição dramática de comédia, mas não só: nascido há exatos 140 anos e falecido com escassos 45 anos, mesmo assim a relevância da sua obra merece destaque.

E esse destaque não deriva apenas da sua dramaturgia.

Com efeito, será oportuno desde já referir a colaboração direta ou indireta com a produção cinematográfica. E aí há que citar desde já a adaptação que António Lopes Ribeiro fará em 1945 de “A Vizinha do Lado”, peça datada de 1913. E importa então sublinhar dois aspetos inerentes.

Desde logo, o sentido de espetáculo que a obra de André Brun envolve. “A Vizinha do Lado”, independentemente da adaptação cinematográfica, contém uma apreciação notável de conflito dramático. E hoje em dia, é assinalável a própria adaptação, pois Lopes Ribeiro transpôs esse conflito para o écran da época, sublinhando então designadamente a teatralidade subjacente.

Essa teatralidade surge em toda a obra dramática de Brun.

Tal como temos referido em outros estudos, o que marca a construção dramatúrgica de Brun, independentemente da época, é um ambiente pequeno-burguês dos textos e das situações. E isto realça-se sobretudo em outra peça destacada de Brun, “A Maluquinha de Arroios”, esta de 1916.

Em ambas as peças, sobressai efetivamente uma evocação dramática de personagens que traduzem a problemática da época, mas que subsistem até hoje com um notável sentido de espetáculo.

E nesse aspeto, é relevante como já temos escrito, a aproximação ao que viria a ser mais tarde o teatro do absurdo, independentemente da abordagem epocal e geográfica das peças em si. Torna-se aliás oportuno sublinhar a percussão que este teatro assume numa proximidade ao que viria a ser o teatro do absurdo.

O que não obsta ao realismo epocal de cada uma das peças. Nesse aspeto, há que sublinhar esta adaptação, digamos assim, do sentido da época com a permanência dos personagens em si mesmos até hoje. Tal como aliás já escrevemos, até Brun como que adivinha o sentido de “non sense” que marcará o teatro a nível mundial.

Brun tira premissas absurdas e desenvolve-as em termos de farsa inverossímil mas teatralmente verídica. Os personagens enfrentam-se com um notável sentido de espetáculo. Tal como já dissemos, aproveita até ao cerne todas as hipóteses de graça e de “non sense”. Tira de premissas já absurdas as mais absurdas conclusões. Lança os personagens uns contra os outros, em cenas de progressivo espetáculo, de ritmo alucinante, até a uma apoteose de graça, velocidade e intensidade. E depois tudo é resolvido a contento, mas com uma inevitável sentimentalidade.

E citamos ainda uma conclusão que esta vasta obra merece tal como a abordamos já. Com efeito, as duas peças citadas são de longe as melhores. Mas Brun deixou numerosas peças que de certo modo marcaram o teatro da época. Tal como escrevemos, agarra nesta “humanidadezinha”, lança-a a partir de bases reais e dinamiza-a na farsa mais inverosímil.

 

DUARTE IVO CRUZ

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