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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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ANTOLOGIA

  


ONDE HABITARÁ O SEGREDO?…
por Camilo Martins de Oliveira

Minha Princesa de mim: 

Cheguei a esta idade em que dizer “lembro-me de que…quando…etc…” já não será garantia de qualidade e origem, e até talvez tenha ultrapassado o prazo de validade. Mas, decrépito reacionário que seja, talvez por isso goste sempre muito deste recordar que é viver, e, mais ainda, do avivar da memória que só a confiança da nossa confidência (perdoa-me o aparente pleonasmo) pode oferecer-nos. Pois que, na verdade, do que lá vai não será nunca a memória intelectual – que é seletiva – o mais verdadeiro testemunho. Antes permanece o que o nosso coração guardou. E bem percebeu Pascal as razões do coração. E sábia era minha Mãe ao pedir para este filho um coração puro, pois só um coração assim quanto possível guardará na memória o trigo – que é, singelamente, o bem que outros nos quiseram e o bem que mesmo a inimigos conseguimos desejar. Esquecendo o joio. Passadas sete décadas, todos os dias recorro, apesar de muitos fracassos, a esse exercício de limpeza do olhar íntimo, pois só no coração nos é legítimo pensarsentir. Hoje ainda, uma amiga, pessoa de curiosas sintonias, me desejou um dia com a cor que eu desejasse. Não lhe respondi, mas dir-lhe-ia que todos os dias quero o arco-íris. Não como Calígula a pedir a lua a sua mãe, mas para sentir as cores de todos. Como Noé viu a paz universal num feixe de tons. A harmonia não tem sentido possível na uniformidade, mas só no acontecimento das diferenças que unem a terra ao céu. Quando, depois da tempestade, a incidência da luz reúne as cores numa aliança. Falava-te de lembranças? Talvez dessa, de um encontro com Stravinsky e Cocteau, por via dos Maritain (há quantos anos?), em Paris, por ocasião de um “Oedipus Rex”. Escrevi-te a referi-lo e, rio-me eu agora, já não te lembras? Desde que conheço a sua música, ouço, escuto, Stravinsky com atenção indivisa. Os primeiros discos que comprei, daqueles que facilmente se riscavam e partiam, foram, um de Beethoven, outro de Stravinsky. Do primeiro, a 5ª e a 8ª sinfonias (que ainda hoje, em silêncio, canto de cor, imitando instrumentos). Do russo, “O Pássaro de Fogo” e a “Sagração da Primavera”. Se tivesse ensurdecido, como Beethoven, Stravinsky teria deixado de compor. Era um artesão, precisava de martelar e ouvir o piano, o instrumento produtor de sons, para trabalhar com eles. O que verdadeiramente o prendia ao exercício de fazer música era, não só o gosto inato pela organização matemática dos sons, mas sobretudo a massa sonora, como o barro para o oleiro ou o metal para ourives ou ferreiro. Ter-lhe-á sido certamente útil o rigor técnico obrigado pela sua professora de piano, mas foi crescendo pelo seu gosto da procura dos sentidos possíveis dos sons, através das improvisações a que se entregava. E deve muito ao acolhimento que o grande orquestrador que Rimsky-Korsakov era lhe reservou, com paternal amizade. Gosto de pensar na música como peregrinação por caminhos desconhecidos e, todavia, tão percorríveis no íntimo de nós. O coração da música não está tanto nessas melodias divertidas e fáceis, que superficialmente captamos, por qualquer reflexo nervoso (como, aliás, nos, também necessários, copito a mais ou anedota pícara). Estará mais nessa atenção à possibilidade de tirar, das matérias que compõem as coisas várias deste mundo, um som inesperado, revelador da milagrosa essência do ser. Recolhi-me há pouco, por uns nove minutos, com as sinfonias para instrumentos de sopro, compostas por Stravinsky aos 38 anos (em 1920). Chamam-se sinfonias, com sentido etimológico: fonemas que soam simultaneamente (e perdoa-me mais um pleonasmo…). Foram compostas em homenagem a Debussy, mas são “vintage Stravinsky”, e do mais puro. Tocam vinte e três sopros (doze madeiras e onze metais), a sinfonia é compacta, estruturante, nada há nela de estridente ou vadio, é intimamente hierática, mas para reunir. Dez anos mais tarde, ainda em movimento místico que o trouxe de regresso à Igreja Ortodoxa Russa, para celebrar o 50º aniversário da Boston Symphony Orchestra , Igor Stravinsky apresenta a Sinfonia dos Salmos, composta com textos em latim, tirados da tradução “vulgata” de S. Jerónimo. Diz-se que a ideia lhe teria ocorrido em Pádua, em 1926, quando ali assistia às comemorações dos 700 anos de Sto. António de Lisboa. Mas, Princesinha, disso e mais te escreverei se me refrescar a memória. Por agora, vou escutar o “Oedipus Rex”, com texto francês, para o narrador, que Jean Cocteau foi buscar a Sófocles, e traduções latinas, para o recitativo e canto da ópera-oratório, devidas ao padre jesuíta Jean Daniélou, mais tarde teólogo no Vaticano II e cardeal. Olha: talvez te fale também dos (des)entendimentos de Stravinsky com Cocteau, e sobretudo com André Gide (no caso da “Perséphone”): ou de como nem sempre é imediato o acordo das palavras e da música. Será que vou escutar o Édipo, só porque te falei na memória e penso que o nosso maior enigma é o esquecimento? Dás cabo de mim, Princesa.

Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 22.11.13 neste blogue.  

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Comentário sobre “ANTOLOGIA

  1. Meu querido Príncipe!
    Também gosto muito, aliás “adoro” todas as músicas que referiste! Mas admito, que te terias aproximado mais do segredo, se tivesses fossado fundo na Terra. 🙂 🙂

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