Gostava de dizer que é difícil dizer de António Lobo Antunes. Refiro-me a um grande escritor deste Portugal; a um escritor que afirma com modestíssima realidade “tenho uma imensa inveja dos poetas. Na poesia cada palavra tem um peso específico…uma carga.” E com estas poucas palavras, o que parecia definido, aparece como inesgotável no mundo das gentes que escrevem; sobretudo no mundo das que escrevem poesia de um jeito livre em tempo, em espaço, em concretização, em atitude perante o mundo, em princípio de esperança, em universo filosófico, aberto numa totalidade despojada.
Julgo que existe em António Lobo Antunes um saber ler e escutar milenar. Algo com força transgressora e necessariamente sem receios do risco face ao que entendeu dizer e dizer-se. É heróico quem procura ultrapassar o limiar da quietude e do aparente e, assim sendo, António é para mim um afecto tão próximo da explosão de um desconhecido, que abrirei sempre a porta de qualquer um dos seus livros, e sei que não receio qualquer caos naquele seu imaginário, apenas um diferente puzzle de um crescer sem qualquer cristalizar.
Existe hoje, no meu modesto entender, mais do que nunca, uma liberdade muito humana no estar de António Lobo Antunes com a vida e com a escrita. Houve um empurrar propositado, consciencializado, para o resvalar das hierarquias – tenham sido elas as que foram, tenham elas outra designação -, que lhe deu dinâmica nova: um filão de pensamento e de sentir que leva a cabo os dias em consonância com o que não é esquematizável.
António, que te possa dizer eu, que, se já em ti, li, algum efeito de estranhamento, sempre ele se envolveu num perigo por ti assumido, com parcialidade, lugar onde a tua escrita é fascinante e a todos nos envolve num filme de onde o risco é partir.
Teresa Bracinha Vieira
2015
