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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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AO ACORDAR DE CADA DIA…

 

Minha Princesa do fundo de mim:

 

Ao acordar de cada dia, a minha lembrança de ti é esta ternura que te cria. Imensa, menina e clara como a manhã. O amor é poético, é o palpitar do real absoluto, esse bater do coração do universo inteiro. É Deus que nos persegue, desde a antiquíssima madrugada de nós, mesmo quando já é noite e a lua, subitamente, começa a ser real. No amor que te tenho, tão incansavelmente fiel, procuro o amor dos outros e de tudo. Terei, quantas vezes, de me contentar com a lua que não alcanço, na certeza, porém, de que nela se reflecte  –  promessa láctea como seio de mãe  – o sol tão radioso que me cegaria se o visse já. Assim é a condição humana em seu caminho. Sem dar por isso  – reparo agora  –  lembrei-nos com Novalis, a Traviata e Álvaro de Campos. Como Poulenc terá comungado com Bach nos concertos para dois pianos. Ou Beethoven com Mozart no seu quarto concerto para piano. Ou Camões com Petrarca. Li hoje, algures, que já cientistas defendem que, no nosso coração, há neurónios que pensam. Serão pois sábias as razões do coração, como Pascal pretendia. E mesmo o conhecimento  –  disse Claudel que a “connaissance” é nascer com  –  por ser amor da verdade, não será, afinal, o nosso coração à procura da rocha a que as lapas que somos possam aderir? O amor não é vaidoso, nem contentamento de si. É a recusa do orgulho, o querer bem. É a procura da bondade. Que tem outros nomes, como verdade. E beleza também. Nada nos é, nem pode ser, imposto. O Jesus que disse “deixai vir a mim as criancinhas” chamou-nos a um jugo leve e suave. Assim é tão doce a ascese do amor. Não há disciplina sangrenta, nem fará sentido pensar que qualquer modo soturno de castigo nos libertará de nós. Só a quem quiser bem por bem querer, tudo o mais será perdoado. O Evangelho segundo S. Lucas é conhecido por ser a boa nova da misericórdia. O trecho que dele se proclamou na missa de hoje, todavia, pode parecer a alguns um discurso totalitário: “Se alguém vem ter comigo e não me preferir ao pai, à mãe, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo”… Mas, logo depois, chama atenção para a estultícia de quem quiser construir uma torre sem calcular se lhe é suportável o custo, ou para um rei que mova uma guerra contra outro, sem pesar bem a inferioridade das suas forças, nem procurar negociar a paz. E conclui dizendo “assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo”. A mim, este texto diz-me que o amor é exigente, não por ser partidário, mas por nos chamar à solidez e à paz. Porque nos chama ao despojamento de nós e não nos quer afetos aos nossos só, como se escolher Deus  –  que é tudo em todos  –  fosse excluir alguém, os outros. Os que são diferentes. Renunciar aos nossos bens não é deitá-los fora, antes é querer que o bem seja para todos. O bem não se impõe,anuncia-se. O bem chama-nos. A todos. O pecado do “fundamentalismo” é entender que o bem é propriedade sua, como a verdade que pensará entender ou a beleza que julga possuir. O amor é renúncia, porque como a misericórdia de Deus e a ternura possível dos homens se debruça sobre os outros. Simultaneamente, somos todos pobres e samaritanos. Bons e maus, é esta a nossa condição. Aliás, na parábola do bom samaritano, não é o socorrido que é o próximo. Mas é o estrangeiro que socorre. E também Montaigne nos ensinou como, entre amigos, não é quem mais ama que é credor. Credor é, sempre, aquele a quem não foi dada a possibilidade de amar. Ai, Princesa, Princesa, dás mesmo cabo de mim…

Camilo Martins de Oliveira 

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