Numa homenagem a José Ruy o grande mestre da Banda Desenhada e à memória de Amadeu Ferreira, que tanto deu à causa da língua portuguesa e da língua mirandesa, citamos um texto publicado há pouco no DN…

A MAGIA DA PALAVRA
Fernão de Oliveira, autor da primeira “Gramática da Linguagem Portuguesa” (1536) alertou: “Não desconfiemos da nossa língua, porque os homens fazem a língua e não a língua os homens”; e João de Barros, quatro anos depois, afirmou que o português “não perde a força para declarar, mover, deleitar e exortar a parte a que se inclina, seja em qualquer género de escritura”. É a língua o nosso mais importante valor civilizacional. Deve, por isso, ser por todos protegida. E como fazê-lo? Falando-a e escrevendo-a bem. Compreendemos, por isso, Fernando Pessoa, num texto muito referido mas pouco compreendido: “Odeio com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon…”.
Muito se tem dito sobre o tema. Contudo, do que falamos é de um ato de cidadania, mais do que de questão de gramáticos, como está no “Livro do Desassossego”. O fundamental é que saibamos comunicar, que nos façamos entender corretamente, tal como nos ensinaram os melhores cultores do nosso idioma. E tantas vezes esquecemos as nossas próprias condições históricas, bem diferentes do caso da língua inglesa, que não necessitou de regulamento ortográfico, porque, como país da Reforma, o rei Jaime I ordenou que fosse feita a tradução da Bíblia em língua vulgar, obra magna que ficaria concluída em 1611. Hoje, continua a ser essa a matriz do falar e do escrever em inglês, como uma das mais belas obras literárias do idioma, criada para ser lida em voz alta nos templos e compreendida em silêncio por cada um dos seus leitores. A história portuguesa nesse domínio é, como sabemos, assaz diferente. Desde 1911 que o tema se discute, numa longa sucessão de encontros e desencontros. A República propôs-se simplificar, com substituição, por exemplo, dos dígrafos de origem grega (th, ph) por grafemas simples (t, f) ou com a eliminação do y. E Pascoaes não se resignou: «Na palavra lagryma, (…) a forma do y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal». Em 1931, foi assinado um primeiro acordo luso-brasileiro, que não foi aplicado. Em 1945, houve novo tratado, mas o Brasil continuou a aplicar o seu vocabulário de 1943. Em 1973, o governo português aboliu os acentos grave e circunflexo em certos casos; e em 1990 houve o Acordo Ortográfico…
Independentemente de controvérsias, temos de tomar consciência de que se trata de um património cultural partilhado, língua de várias culturas e cultura de várias línguas, que terá mais de 500 milhões de falantes no final do século. Temos de cuidar bem desse valor, para que o português seja bem falado e escrito (com os verbos intervir e haver bem conjugados, com o plural de acordo sem ó aberto), sem o massacre dos pronomes; sem erros escusados de uma novilíngua orwelliana – como resiliência em vez de resistência; implementação em vez de execução ou até implemento; evidência em vez de prova; empoderamento em vez de capacitação. Ler ou ouvir grandes escritores é o melhor caminho – disse-o Filinto Elísio: «Aprendei, estudai; / e os bons autores sabereis ter em crédito e valia. / Eles a língua em seu primor criaram / eles no-la poliram».
GOM
Obrigado, por falar do passado da nossa escrita, acredito que eu não consiga fazer a sintaxe deste tempo, estou contaminado é do passado.
pagina 55 a 57 – 1881
A influencia da tradição lyrica galleziana foi profunda ; apezar da primeira communicação do gosto trobadoresco por meio dos trovadores vindos da Italia meridional, como Marcabrus e Gavaudan; apesar da emigração dos fidalgos portuguezes para França nas luctas da nobreza e do clero contra D. Sancho 11, taes como os Valladares, os Porto Carreros, os Reymundos, os Estevans, os Aboins, trovadores, que se desenvolveram na côrte de Sam Luiz, e acompanharam Affonso il no seu regresso para Portugal; apezar do desenvolvimento erudito da poetica limosina, ou propriamente provençal no tempo de D. Diniz, dirigido pelo seu mestre Aymeric d’Ebrard, de Cahors, não obstante estas correntes exteriores, mas fortes, de imitação, a maior actividade litteraria que se determina nos nossos Cancioneiros é exclusivamente galleziana.
Os nossos Cancioneiros provençaes estão hoje totalmente conhecidos; existem perto de duas mil canções escriptas entre o seculo xii e xiv, suppondo que a vasta compilação mandada fazer pelo Conde de Barcellos, e deixada em testamento a Affonso xi se comporia dos fragmentos publicados do Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Vaticana e Cancioneiro de CollocciBrancuti.
Para apreciar o valor d’estas canções basta dizer, que o elemento ou espirito popular que aparece em um grande numero d’ellas é superior ao que tanto se estima em todos os outros Cancioneiros das litteraturas romanicas. As serranilhas gallezianas são de uma belleza inimitavel, e o que assombra, apresentam as mesmas formas que as pastorellas italianas e as balladas provençaes mais proximas das fontes populares.
O problema litterario que se contém n’estes paradigmas foi pressentido pelo romanista Paulo Meyer; pelo estudo das serranilhas gallezianas se deduz o desenvolvimento de todo o lyrismo portuguez, quer na época do bucolismo de Bernardim Řibeiro e Christovam Falcão, quer mesmo no periodo de imitação italiana.
Esta tradição fundamental das formas lyricas nacionaes subsiste nas endexas de Sá de Miranda, nas mimosissimas redondilhas de Camões, e mesmo a superioridade lyrica de Dom Francisco Manoel de Mello e de Francisco Rodrigues Lobo, não pode ser explicada na epoca do culteranismo seiscentista, senão como uma consequencia do conhecimento da tradição galleziana que se descobre nas formas d’estes dois poetas. O grande genio de Gil Vicente pressentiu o valor litterario d’esta tradição poetica, e intercalla nos seus Autos numerosas serranilhas, extraordinariamente bellas, e que Frederico Diez com um grande tino critico aproximou das formas gallezianas conservadas nos Cancioneiros.
THEOPHILO BRAGA. APONTAMENTOS PARA A HISTORIA DA ORTHOGRAPHIA PORTUGUEZA
Como dissemos, a Grammatica de lingoagem foi a primeira escripta em portuguez , o que o auctor se não esqueceu de mencionar no ultimo capitulo d’ella : «e como escreui sem ter outro exemplo antes de mi.»
Fernão d’Oliveira no seu novo livro espraia-se em largas divagações alheias ao assumpto, fallando-nos da primazia de Portugal, e das origens do seu nome (3 capitulos) do que fossem as letras e linguagem não só entre nós mas tambem em periodos remotos em varias nacionalidades (3 capitulos); das letras falla-nos em 13 capitulos, das syllabas em 6, das dicções em 12, das analogias em 1, das declinações em 2, do artigo
É para notar que este livro fosse desconhecido dos monges da Real Cartuxa de Evora, que em 1785 publicaram a Compilação de varias obras de João de Barros, e do qual dizem no prologo «Foi o primeiro na gloria de compôr huma Grammatica na Lingua Portugueza». E certo porem que já em 1747 o abbade de Sever na sua famosa Biblioth. Lusitana (vol. 2.) se refere a Fernão d’Oliveira e á sua Grammatica.
em 2, do accento em 2, do nome em 2, dos verbos em 3, appensando á obra um ultimo capitulo, no qual se desculpa é defende de reparos que porventura lhe façam ao trabalho.
Como grammatica o livro é imperfeito, confuso nas doutrinas, não apresentando verbo algum conjugado, nem declinações. Onde porém se mais accentua o espirito do auctor é na sua forma de orthographar, não acceitando letras estranhas ás que julga proprias da lingua, e a proposito diz no capitulo ix, tractando das consoantes mudas «tiramos dantras nossas letras .k. porõ sem duuida elle antre nos não faz nada: nem eu nunca vi em escritura de Portugal esta letra .k. escrita: ora poys as dições gregas quando vem ter entre nos tá longe de sua terra: ja lhes naõ lembra a sua ortografia: e, nos as fazemos conformar com a melodia das nossas vozes: e co as nossas letras lhes podemos servir. Por tanto .k. nē .ph. nem .ps. nunca as ouuimos na nossa linguagem: nem nas auemos mister.) A pesar porém d’esta prescripção das letras gregas, ou das que lhe correspondem, adopta o y, o qual julga preciso entre duas vogaes, como por ex. em mero, seyo, moyo, joyo, aporã oi não faz syllaba por si,» nos diz o auctor no capitulo xiv.
Conta as vogaes por 8, sendo: a breve, a longo, e breve, e longo, i, o breve, o longo, u: as vogaes longas são representadas por figuras proprias, e peculiares aos caracteres gothicos por então usados nas impressões dos livros. De abreviaturas diz haver muitas e escusadas, as mais d’ellas «co esta letra til» sendo para notar-se que o proprio livro seja um dos que mais abusa d’este signo de abreviação. Nas palavras peregrinas dispensa a orthographia nativa, conforme claramente declara no capitulo xxiv. «As dições que trazemos doutras linguas escreuelasemos co as nossas letras @ nellas soað como ditogo. filosofo. gramatica: porġ todo o mais he, empedimente aos ģ não sabé essas lingoas donde ellas vierað: senão qndo forem tað novas antre nos que seja necessareo pronuncialas co a melodia do seu nacimento: mas nos trabaÎhemos înto poderemos de as amāsar e cõformar co a nossa. Foi talvez seguindo esta norma, que escreve manifico, inorante, etc.
Carecemos de fundamento para apreciar qual fosse a influencia que teve na educação popular a Grammatica de lingoagem, apesar da sua novidade, e de ser publicada em Lisboa, quando a Universidade ahi estava ? O que porém é certo, é que João de Barros, que depois foi um dos mais notaveis historiadores, senão o mais notavel, da sua epoca, publicando a Cartinha para aprender a ler (Lisboa, 1539) e no anno seguinte a sua Grammatica, parece desconhecer completamente as locubrações do seu predecessor, o padre Fernão d’Oliveira.
Na Grammatica, de que nos vamos occupar, João de Barros revela-se já o notavel escriptor que mais tarde havia de ser o insigne auctor das Decadas, e que pelo seu alevantado estylo e correcção de linguagem mereceu o cognome de Tito Livio portuguez (Continua).
João Felgar
Um escritor Joao de Barros, naquele tempo, a nossa linguagem tinha sintaxe, para os mais eruditos de hoje, não iriam entender nada deste notável escritor
Dialogo da viciosa Vergonha
Joao de Barros · 1540
COFBIBLIOTEK IOAM DE BARROS EM O DIALOGO DA VIçiófa uergonba. Moprólogo da Cartinha Q grammática da nossa linguagem que deregimos ao principe nósso senhor: prometemos hum
Diálogo da uiçiósauergonha, por ser ma tēria conueniente á idáde dos minimos em cuio proueito as outras pártes se ordenáram. Agora que chegamos a elle parece que aneceßidádepęde dármos aqui ra zám do seu fundamento: por que o impresor pelo que lhe tocáua, como a Cartinha foy impresa procurou proueito della fem oulbár anása órdem. Porque depois que os mininos fáem das leteras que ço leite de sua criaçám:começám a militar em costumes pera que lhe conuçmármas conuenientes aos uicios naturáes de sua idade. E como a uiçósa uergonha ç o primeiro imigo que os comęte foriamos neste seguinte Diálogo ármas com que se della podem defender. Em cá,4 tonio:Vảiá minbaliarariaze trázebũus quadernos numero quinze, que estám naestante fegunda na párte numero feyesc F) Sam os quadernos da grammática da lingua Portuguesa, que compos pera o principe nósso senbor? (P)
Ejes famós que pçcorFc Lá ficam outros quadernos numero dezaseyes , e diz acota, Tratádo de caufas. Sam tambem aquelles da materia da grāmática:(P) Namjeseç bum tratádo deregido aty, o quál uou copoendo pelo discurso dos temposé F) Que quer senhor dizer, de caufas:porque ainda nam quuy, tál titolo (P)Nam ouuiste tu iá falár nos problēmasde Ari(F) Lógo tratádo será de filosopbia naturálēporque meu nieštre tē būus problemas, e diz elle que fam questões de filosofia (P) As causas do teu tratádo nam sam naturáes,mas moráes: ou por falár uerdáde same de hómēes temporáes, que em búas mesmas obras derē diuerfos fructos por diferentes causas,donde naceo o ti tolo ao teu tratado. Temlhe muyto amor, cá cu tổ lei caujas
A DIALO GO.ee xo como herāça de minha posibilidáde: e sete nam leixár outra mayor,a bi acbarás tambem essa causa, que será afáz pera saberes que tenho amor de páy limitádo naley de deos.Leuãtate,áias a sua bençãe a minha. E por galardám deßa cor quete uco do rostro pois estamos é causas,quçro te dizer. a causa della:e quam louuá da nos de tua idáde çâ necesaria e quã uiciófa étodosê sobeia. E nistofarey ô pera que pedia estes quadernos da grāmática, que era escreuer algúa cousa morál pera doutrinár os de tua idáde. E seaçerca desta matçria da uiciófa uergonha desciáres saber algúa cousa, pódes perguntár:easlidas tuas perguntas e minhas repóstas faremos hum diálogo inocente pera inocêtesc. O OU tro dia estáua meu mçstre lendo hun tratado de Plan tárcho, cuio titulo tambemera, da wiçiófa uergonha. (D)Muitos autores tratáram de bija materia, mas o módo e caminho q cadabú leuou, fez a uariaçã de quã. tos tratados uemos.Plutárcho,dádo que feia dos mais gráues autores que tratáram matçrias morées,në por ißo seguirey em tudo seu caminho, mas daquelles que seguiram ô do auägelbo de Cristo que elle nam seguio nem alcançou , no qual acharás mais enleuáda filofofiada que tratáramtadolos gentios escritores. E poré, por que a prática è contigo e ordenáda aos de tua idádezos quáes iá das escolas tendes ouuido ditos e fētēças morács demoráes escritores como Plutárcho:traremos as auto ridades e exemplos daquelles que nos ocórrerê á memo ria,roubádos delles como de iuftos pofsçdores,á imita çõdus hebreos:queroubárā os uáfos e preciósas ióyas Exodi.xij.c dus egiçios.E daqui te dou licença que ás pósas alegár: quando te ocorrerem a prepósito da matçria. E pornã preambulár mais,quçro fazer o que diz Tullio no liuro Lib.i.deoffi dos oficios:começár da difinçã pera se entender aquillo de que se tráta. Aristóteles quçrğa uergonha, seid’hữa Difincam da dor é toruaçã dos mnáles presentes ou futuros:os quáes Lib.ij.retio fobreuindo trázem infamea.Santo Thomás,dizzuergo ‘s Thoij.y. nha çhữtemor de torpeza reprenfiuel,que principálmēq.c.vi.co.ij. te oulha ao uitupçrio e per consiguinte á culpa : e isto em duas maneiras,çesando ou encobrindo(F) Lógose gundo essas difinções tem ella tres nomes:Dor, Torua çám. e Temór:P)Os nomes diferentes, fam segūdo as caufas donde ella proççde.
Era a nossa escrita naquele tempo
João Felgar