
Minha Princesa de mim:
Morreu, neste último 16 de janeiro, a poeta suíça francófona Anne Perrier. Perfaria, a 16 de junho próximo, 95 anos. Filha de mãe alsaciana e pai suíço valdez, ela católica, ele calvinista, ambos não praticantes, Anne Perrier converter-se-ia à confissão católica aos 32 anos de idade. Recebeu vários prémios literários, dos quais quero destacar, não o Grand Prix de Poésie, o mais importante, mas o Rambert, pois lhe foi atribuído pelos poemas reunidos em Lettres Perdues, um ciclo dedicado àquele que ela chamava seu irmão de cristal, o poeta português Cristovam Pavia, da geração e amizade de Pedro Tamen, M. S. Lourenço, João Bénard da Costa, Nuno Cardoso Peres (hoje o dominicano frei Mateus), que se suicidara. Em homenagem a esse encontro de poetas, e a todos os que procuram caminhos de Deus no canto e meditação das palavras, deixo-te aqui a minha tradução dos primeiros daqueles poemas. A série das Lettres Perdues é uma sucessão de composições sem título, nem pontuação, com maiúsculas apenas a marcar versos ou ritmos. A poeta, cujo pai, arquiteto nascido em Viena, gostava de levar com ele a concertos de música clássica, chegou a hesitar entre a entrega às letras ou à música. Creio que acertou na opção, pois as palavras que nos deixou dizem-nos lindamente a limpidez do seu olhar espiritual.
Pelas frinchas da eternidade
Falaremos juntos
Procurando os nossos sopros
Pouco a pouco deixando as nossas vozes
Reacordarem-se
Tu céu eu terra
Falaremos muito tempo muito
Até que o verão
Nos cubra de flores campainha
À minha volta as grandes flores
Amordaçadas pelo dia
Meu coração como o mar
Se retira
É meio dia
Meia noite?
A hora prenhe de folhas mortas
Dobra-se
Meu irmão entre a salva e a sombra
Repousa
Que o dia sobre o dia
Cruze as suas trepadeiras
Vês
A morte cheira a erva e a orvalho
O teu coração está cheio de grilos
Repousa
Meu irmão entre a menta e a sombra
Para ti
O tempo seca num ervário
Eu à beira da terra
Ainda espreito
A próxima partida dos pássaros
Por florestas e fetos Por mil nascentes Pelas águas do abismo Pela neve inacessível Meu irmão te chamo
Como queres que durma?
De uma a outra chuva
Tanta pimenta nos olhos
Oh! no vento de outono
Este nunca mais
Como janela que bate
Esse infinito bater de asas!
Se buscasse frutos flores
Nada acharia
Altíssimo no céu
As nossas almas se cruzavam
Como cotovias
O espaço foi o nosso reino
Convido–te, Princesa, a entrares comigo nesta comunhão de dois grandes poetas, transcrevendo aqui dois poemas de Cristovam Pavia, pensandossentindo que ele e Anna Perrier estão a falar juntos, procurando o acordo das suas vozes no eterno reino do infinito espaço.
Estamos juntos quando nos vencemos e nos purificamos dia a dia,
e quando rezamos a Deus, e pedimos mais purificação…
E quando um descanso grato e humilde é a recompensa.
Estamos juntos, quando a Poesia nos toca
e entramos como reis no Reino do Silêncio…
Quando sentimos que tempo e risos e lágrimas e tudo
em nós amadurece…
Estamos juntos, quando a noite é fria e o calor custa a suportar,
quando a solidão é mais solidão
e vemos como na boca de tantos a palavra Amor é profanada…
Oh! Ainda que nos separem Oceanos,
estamos juntos, bem juntos, bem o sabes, numa profunda
companhia!
Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo…
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.
Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
que voltou e anda no ar como um perfume…
Há-de haver velas pela casa
E xailes negros e um silêncio que eu
Poderia entender.
Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente…
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,
E mesmo que tu não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu o não esqueças.
Não resisto, Princesa – por achá-la tão clara de verdade e beleza – a transcrever ainda a Epígrafe de Cristovam Pavia:
Um barco sem velas
E sem rumo
Singrando um mar de fumo,
Mas descobrindo estrelas…
Nisto me resumo.
E vai, no seu francês original, a resposta que, imagino eu, Anne Perrier lhe teria dado, quando escreveu:
Je pense, ou je rêve à une manière de “posséder comme ne possédant pas”, de prendre en acceptant de perdre aussitôt, je rêve à des gestes désappropriés, à une sorte de possession aux mains ouvertes où le chant passerait comme l´eau entre les doigts. Fala aqui a mesma poeta que confessou (agora traduzo):
Paro por vezes debaixo de uma palavra
Precário abrigo da minha voz que treme
E luta contra a areia
Mas onde está a minha morada
Ó aldeias de vento
Assim de palavra em palavra passo
Ao eterno silêncio
Camilo Maria
Camilo Martins de Oliveira