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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

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   Minha Princesa de mim:

 

   Escrevo-te de Portugal, no momento em que o papa Francisco visita a Senhora de Guadalupe, no México. Uma década antes de Dom Pedro de Alcântara ter lançado, diz-se, o grito do Ipiranga, esse Liberdade ou Morte! que o tornaria no primeiro soberano do Brasil independente, já em 16 de Setembro de 1810 o padre Miguel Hidalgo, um dos fundadores da independência mexicana, lançara a insurreição gritando Viva la Virgen de Guadalupe!, invocando como Mãe e Protectora de todos os mexicanos a Senhora que, a 9 de Dezembro de 1531, aparecera a um pobre pastor índio, convertido ao cristianismo, e a cujo apelido indígena, que era Cuauhtlatoatzin, se antepusera o nome de Juan Diego, quando fora baptizado. S. Juan Diego foi canonizado por João Paulo II em 2002. A Virgem, Nossa Senhora de Guadalupe, recuperou e integrou as virtudes e o culto de uma divindade azteca antiga, Tonanzin, deusa da fertilidade, já venerada, em tempos pré-colombianos, no mesmo monte Tepeyac em que, por quatro vezes, a Mãe de Jesus viria a manifestar-se a Juan Diego. É curioso observar que Tonanzin quer dizer nossa mãezinha (nuestra madrecita, dizem eles, em castelhano). Hoje ainda podemos ler, à entrada da basílica de Guadalupe, uma inscrição das palavras que a Senhora, cujo manto abriga e reúne todos os mexicanos  —  índios, crioulos e mestiços  —  teria dito ao santo pastor, índio convertido: No estoy yo aqui, que soy tu Madre?.

   Assim, a Virgem de Guadalupe é símbolo da unidade de um povo multirracial, do acolhimento igual de todos pela universalidade da Igreja católica, quase um elogio da mestiçagem, este tanto mais eloquente quanto foi longa e dura a luta, na América espanhola (e não só), dos missionários contra governantes e colonos, pelo respeito da dignidade humana e do valor divino das populações autóctones. Lembra-te, Princesa de mim, do que, no rasto de sermões do padre António Vieira, noutras cartas te contei sobre o assunto. É ainda, mais do que uma devoção ou um recurso, uma força dinamizadora dos movimentos pela justiça. Até o Emiliano Zapata, na sublevação que conduziu, em princípios do século XX, erguia uma bandeira com as cores mexicanas e a efígie da Virgem de Guadalupe. E todos os levantamentos populares, a própria resistência às ditaduras ou às perseguições de cristãos, invocaram a Senhora Mãe e pediram a sua protecção e coragem. Eu diria que a Virgem de Guadalupe a todos lembra a oração do Magnificat : A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador. Porque pôs os olhos na sua humilde serva, doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada. O Todo-poderoso fez em mim maravilhas, Santo é o seu nome. A sua misericórdia estende-se de geração em geração sobre aqueles que o temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e despediu os ricos de mãos vazias… [Lucas, I, 46-53] 

   A história, lendária ou não, de Juan Diego é bonita. Tinha ele por hábito subir e descer pelo cerro onde hoje se ergue a Capilla del Cerrito, a caminho do mercado, quando, nesse tal dia 9 de Dezembro de 1531, lhe apareceu Nossa Senhora, pedindo-lhe, em língua azteca (o nahuatl) que diligenciasse para que ali fosse construído um templo onde os índios pudessem invoca-la, lamentarem as suas desgraças e aliviarem as suas aflições… Logo o pastor se torna mensageiro junto do bispo, o franciscano frei Juan de Zumárraga, que não o leva a sério nem acredita no que diz. Mas a Virgem, no dia seguinte, ouve-o contar-lhe a desfaçatez do prelado e manda-o insistir. Assim será, mas o bispo diz-lhe que peça à Senhora uma prova do que afirma. Dois dias depois, em vez de passar pela colina, Juan Diego contorna-a, para ir chamar um padre que acuda ao seu tio moribundo. Mas a Senhora sua Mãe não o larga: tal como Jesus quando cura a filha do centurião, ela diz-lhe que seu tio está curado, e manda-o, em pleno Inverno, ir colher rosas no alto do cerro. O certo é que as flores estão mesmo lá, cobrindo, radiantes, o cume frio. Colhe-as, envolve-as no seu manto e leva-as ao bispo. Quando, na presença deste, desdobra o manto e o abre, qual Santa Isabel de Portugal, logo surgem, não só as inesperadas rosas, mas ainda a imagem da Virgem, impressa no tecido…

   A autenticidade dos factos, a própria existência histórica de Juan Diego, a autorização do culto popular ou o seu banimento por idolatria  —  tudo isso foi, e tem sido, causa de polémicas. Desde logo, ao cepticismo inicial do bispo franciscano que, mesmo assim, ainda guardou o manto com a santa imagem na sua capela privativa, seguiu-se o entusiasmo devoto do seu sucessor, novo bispo do México, frei Alonso de Montúfar, dominicano. Bem tentaram os guardiões do santuário que depois se edificou, frades franciscanos, ser sobretudo contra; os seus rivais dominicanos foram a favor, até que um bispo dominicano retirou aos frades menores a custódia da relíquia e seu templo, confiando-a ao clero secular da diocese. Também se referiu o facto de que, aquando da conquista do império azteca por Fernando Cortez, os espanhóis terem destruído o altar da deusa Tonanzin, erguido no mesmo cerro de Tepeyac, para ali levantarem uma capela cujo oráculo seria Nossa Senhora de Guadalupe, na Estremadura castelhana, donde era originário o próprio Cortez, apontando-se assim para diferente origem da devoção mexicana. E muito mais se duvidou e disse, e o seu contrário. Parece-me claro, minha Princesa de mim, que só a imagem milagrosa de uma Virgem Maria / Tonanzin, mestiça vestida de cores aztecas, assustaria muita, boa ou má, gente. Mesmo entre os líderes independentistas sul-americanos, no século XIX, o próprio Simão Bolívar, maçon, não apreciou a motivação religiosa de muitos insurrectos, marchando sob o estandarte de Guadalupe. Mas nada conseguiu impedir que a devoção à Virgem assim invocada se estendesse a toda a América dita latina, de quem se tornou Padroeira. Tal como, até  aos dias de hoje, se foi mantendo e alimentando a curiosidade, dúvida e espanto, dos cientistas, que não encontram explicação plausível para a inalterabilidade do tecido em que se imprimiu a imagem de Santa Maria, nem da frescura das suas cores, aliás dadas por desconhecidos pigmentos. Apesar de, nos seus mais de quinhentos anos, a relíquia só recentemente ter sido objecto de protecção especial, além de ter já sofrido atentados. E não esqueças que a túnica ou manto de Juan Diego é feita de uma espécie de sisal, fibra da ageva indígena, planta decorativa que só floresce uma vez, no ano da sua morte, e de cuja seiva se faz essa bebida alcoólica chamada pulque. Tudo indígena, e popular. O santuário e o culto de Nossa Senhora de Guadalupe, hoje o mais concorrido destino de peregrinações católicas, em todo o mundo, com uma média anual de mais de vinte milhões de devotos, é assim um feito raro, caso para cantar: o povo é quem mais ordena…

   O papa que agora o visita é o primeiro bispo de Roma oriundo da América latina, um filho de emigrantes italianos que não hesita em lembrar à Igreja universal, à consciência cristã ou simplesmente humana, a urgência de um exame a um passado de exclusões e explorações de homens pelos homens. Não sentes aí, Princesa, um anúncio profético? Num mundo onde é impossível ignorar injustiças e desigualdades gritantes, intoleráveis padecimentos de povos inteiros, afrontamentos e atentados premonitórios de um obsceno inferno de raivas e ressentimentos, a América latina é um espelho e um aviso: conheceu, ao longo da história, ainda hoje experimenta, toda a espécie de lutas e sevícias, de ditaduras e revoluções, de desrespeito da dignidade humana, pela servidão, pela tortura, pela droga e outras mil maneiras… mas é o continente da miscigenação, da música espontânea, dessa misteriosa forma da esperança que é a resignação que brinca e desafia… Talvez o segredo da paz esteja num olhar da alma que em ninguém vê um estranho, antes um igual cuja diferença me enriquece.

                            Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira

 

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