
Minha Princesa de mim:
Sabes – já te lo tenho dito – que me acontece falar com os ausentes. Não me refiro apenas aos mortos, mas a toda a gente que não está presente, gente da qual nem sei se, por qualquer telepatia, me ouve, ou por acaso sabe que me fala, ou o que me está a dizer. Isto nada tem a ver com espiritismo nem superstição. É só saudade, ou ainda, se preferires, uma comunhão que anima o teatro de relações que nos habita. No cerne deste mistério de ser humano está o sermos relação. Um elo, uma nota insubstituível no concerto do mundo e da vida. Não é por saber que penso, que eu sei que existo. É, tão só e mais simplesmente, porque sempre me surpreendo em relação. Saber de mim é como abrir os olhos pela manhã olhar à volta, sentir-me vivo porque me relaciono com o que vejo, ouço e cheiro. Assim também a minha vida interior é a minha intuitiva relação comigo, com o nó que sou, em que se ligam Deus, que ainda não conheço, e os outros todos que conheço e me compõem. A consciência de mim é, necessariamente, a consciência da minha relação. Nesse sentido entendo o Ortega e Gasset que diz yo soy yo y mi circunstancia. Esta não é acessória, é a parte de mim necessária a que eu mesmo me surpreenda como existência.
Um dos achados mais felizes da teologia cristã é o da Santíssima Trindade, o mistério de Deus uno em três pessoas, como se o Ser, o Quem, absoluto e transcendente, precisasse de relações ao seu nível, para se entreter pela eternidade. O próprio Deus não pode ser sozinho, existir é comunicar. Também assim talvez se explique a Criação que, aliás, no Cristianismo, não é deixada ao abandono pelo Criador transcendente, antes virá a ser habitada por Ele, incarnado na humanidade de Jesus. Não só a ideia de Deus seria absurda sem a Criação, como não faria sentido sem a sua relação mútua.
O relacionamento é uma exigência do ser, não por complementaridade ou modo de perfeição apenas, mas por imperativo ontológico, se assim me posso exprimir. Por isso mesmo a todos nós acontece falarmos sozinhos, e Fernando Pessoa criou heterónimos. Cito Teresa Rita Lopes [In Pessoa por Conhecer I: Roteiro para uma Expedição, Lisboa, Estampa, 1990]: Era uma vez um homem que tinha várias sombras. Chamava-se Pessoa, como por acaso. Desde muito cedo começou a conversar com elas: cada sombra representava o seu papel. Mas não pretendo falar-te aqui de heterónimos: seja o poeta um fingidor, ou um eterno peregrino do dédalo da sua intimidade, um gerador de ficções pessoais, ou simples confessor de amores e emoções, ou algo entre tudo aquilo que já foi e poderá ainda ser, ele, também, é essencialmente uma necessidade de comunhão, ao ponto de procurar as palavras que digam o indizível, como qualquer artista se exprime sem jamais saber se só para as sombras que o habitam, se para todos tantos que ele nunca saberá quem são.
Não me lembro já de se alguma vez te contei uma estranha experiência que fiz, ou sofri: sem que os médicos acertassem ou concordassem, exigi, farto de insuportáveis dores, que me operassem. Vivia, então, em Bruxelas, acabava de regressar e uma missão a Barcelona e Genebra. Cheio de dores de barriga, amaldiçoei as refeições da Iberia – companhia em que viajara – mas nada acontecia que me aliviasse, talvez não fosse da comida. Deitado, lancei mão a um livro do Dr. Spock, desses que tínhamos em casa, para avaliarmos maleitas dos filhotes. Concluí que, afinal e com certeza, estava com uma apendicite aguda. Os sábios físicos duvidavam, a cara metade exigia análises, eu achei que o tempo estava a passar e exigi, como te disse, que me operassem. Milagre! Assim fizeram, fui para a clínica, e lá se mexeram, já passava da meia noite! Era, sim, uma apendicite aguda, estava quase a fazer uma peritonite… Talvez por terem pensado que seria só um abrir e fechar que lhes desse razão, os clínicos terão decidido dar-me uma anestesia curta. Eis senão quando acordo, no meio daquilo, a ouvi-los dizer que cheirava mal, ainda bem que se operou, etc… Eu ouvia tudo, mas não conseguia abrir a boca nem articular uma só palavra… Lembro-me de tentar, desesperadamente, sinto-o como se fosse hoje: ouvia tudo, mas não podia responder, não conseguia comunicar. E ali me quedei, mudo e impotente, numa tremenda angústia. Até que o médico anestesista, sentado a meu lado, despertou também e disse: “Já passou muito tempo, vou repetir a dose!”. Outra vez ouvi e calei. Nunca mais esqueci.
Penso nisso sempre que deparo com tantas situações de gente – até amigos muito queridos – que a ciência hodierna condena a prolongamentos de vida vegetativa, sem que ninguém saiba bem o que isso é… Será humano prolongar-se a respiração de alguém que já não comunica, nem sequer para se queixar? Que sabemos, que podemos imaginar da qualquer dor, bem mais funda, que quiçá o aflige?
Muita gente fala de eutanásia, por e contra, em nome de “princípios”, que não são nem vida nem sofrimento, mas só umas ideiazinhas feitas. Seria melhor acalmarem o discurso e refletirem. Não é certamente legítimo infligir a morte seja a quem for… mas será justo, caridoso, cristão, prolongar a treva angustiante dum sofrimento com que não podemos comungar? Rezo, Princesa, por mais razão, isto é, por mais respeito por quem sofre muito, e mais confiança na misericordiosa ternura de Deus. O moribundo que já não fala connosco, quiçá já fala com Quem. Mas nem isso sabemos.
Camilo Maria
Camilo Martins de Oliveira