3. SEBASTIÃO E OS CARACÓIS
Há provas fotográficas da familiaridade de Sebastião com caracóis: senta-se ao lado eles, e sorri para a câmara, como se posasse para uma fotografia com os seus amigos da primeira classe lá da escola. Também o vi e ouvi conversar com alguns gastrópodes mais atentos, de antenas bem esticadas. Nunca lhes toca, aprendeu que cada caracol conhece misteriosamente o caminho lento que o seu pé-barriga vai percorrendo, ou que, quando se demora mais um pouco em cima de caliça, é porque absorve o calcário necessário à solidez dessa concha que é a sua casa de trazer às costas. Assim, sorridente e solidário, Sebastião vai acompanhando, horas a fio, pelo jardim e pelo terraço, o deslizar sumido dos “seus” caracóis.
Um dia destes, pela festa de São Sebastião, um avô do miúdo, em vez de lhe contar a história de um mártir crivado de setas, numa agonia de sangue, resolveu dizer-lhe que os anjos, lá no alto dos céus, tocavam corneta, cantavam e dançavam, para festejarem os meninos que se chamam Sebastião, sobretudo aqueles que são amigos dos caracóis… Estes, felizes e gratos, tinham-se reunido em grande algazarra festiva, no jardim lá de casa, e cantavam alegremente:
Ora viva, viva Sebastião!
És muito, muito nosso amigo!
E fizemos esta canção
para a poder cantar contigo!
O pequeno assomou à janela do quarto e viu o jardim coberto de caracóis cantantes. Escorregou pelo corrimão de dois lances de escada, correu à porta, que abriu sobre o jardim. Fez-se silêncio, até os caracóis todos começarem a bater as antenas – tal como nós batemos palmas – e um raio de sol, como relógio a bater os bons-dias, iluminar de alegria a manhã. Sebastião sentiu crescer-lhe e jorrar a lágrima paradoxal, veio-lhe o choro mudo da beleza boa. E o coro dos caracóis rompeu e foi subindo, cantando o va, pensiero… Vai, voa, meu pensamento, com asas de oiro leve, leva-me de volta à pátria que não podemos perder!…
Camilo Martins de Oliveira
