A minha telefonia: uma fala-fada com o mundo.
Lugar de destaque e encanto na minha memória e no meu dia a dia estará sempre o ouvir rádio.
Os anos de ouro em que me iniciei nesta dependência, mantêm-se firmes.
Desde criança que o meu gosto por ligar o radio constituía o início dos meus dias em alegria e, mais tarde, na minha adolescência, este veículo de comunicação tão rico, trouxe-me as Cartas de Goeth, no início da noite.
Escutava a leitura destas Cartas com o ouvido fincado ao pano que tapava o altifalante do radio a fim de tentar não perder sequer o final ou início de uma palavra que aquele mundo de Goeth me trazia.
O papel da divulgação da cultura nos anos 60, aportado pelas estações de radio em torno de temáticas que a censura concluía não ter necessidade de intervir, criaram a rara possibilidade de se obter diferentes leituras do mundo, nas entrelinhas dos ouvires que tanto, mas tanto despertava os meus desejos e aspirações ao entender.
Os meus olhos sempre conheceram os sons do radio e são-lhe o lado do mar.
Ouvir Procol Harum no agosto de Whiter Shade of Pale em 1967, ou fazer o inverno seguinte segurando Rain and Tears porque o programa Em Órbita o não esquecia, era tempo de vida que irrompia mais fluido, mais pássaro.
A vida do estar com o radio é uma vida de emoções, de conexões com o mundo, de bem reconhecer o timbre das vozes que se ouvem e as notícias dos inícios e dos aconteceres, das recordações, tudo afinal entre a chave e a porta.
Hoje, a companhia do escutar radio continua atemporal, algo que me chega sempre de um íntimo da Terra em trânsito, sempre em trânsito como no recomeço das eras, aquelas mesmas que confirmam o agora.
Teresa Bracinha Vieira