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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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Crónica da Cultura

CRÓNICA DA CULTURA

NESTE MUNDO SÓ SE MASTIGA 

  


Loira, olhos azuis, branca-rosadinha, nem parecia dali.

– Linda a tua Milinha!

E Luzia logo se benzia. Perdera gémeas no parto anterior e agora olhava sempre incrédula para aquele milagre da Milinha de quem era mãe. O pai de Milinha preferia que ela tivesse sido rapaz, mas como a menina não era doente e ainda era nova para ter sido desgraçada por algum safado, lá se calava quando olhava para ela, e por ora não se lamentava exceto com a verdade do vinho.

Luzia vivia na aldeia do Brado a traços grosseiros da vizinha Lapa da Serra. As poucas gamelas de terra que herdara da sogra, ajudavam-na no tino que as forças lhe davam para manter a família. O Manel tomava remédios para se enjoar do vinho, e por essa razão sumia-se das vistas, e ela lá andava rodilha na cabeça e carrego acima procurando que a Milinha, que tanto a comovia, brincasse com as pedras que vestia de trapos e às quais dava nome.

A cachopita era uma ternura e uma admiração para todos, sobretudo devido à pele tão clara, tão rosinha. A coisa, era de tal modo falada que aquando da ida ao rio para a lavagem dos panos que houvesse, as outras mulheres, numa sobrevivência maliciosa de pensamentos teimosos, atiravam:

–  Ó Luzia, que a tua menina em nada sai ao pai! Tão branca que parece filha de gente fina!

– Eu já calculava que não saísse ao pai…

– Como é que calculavas?

– Não sei, mas se fosse menina…

– Saía a ti? Tu também não és branca como ela, valha-te Deus.

E lá se gerava um mal-estar de zanga sem raiva, e Luzia não conseguia resolver-se liberta do pensar aquela estranha verdade.

Um dia, anos passados, já os rapazes rondavam a porta de Luzia na caça de Milinha, e Luzia, a certa altura pergunta-lhe:

– Ó Emília, tu não te queres casar? Estás sempre tão arredia?

– Para quê, minha mãe?

– Essa! Para o que há-de ser?  – E a filha pareceu-lhe de repente uma estranheza, e atalhou:

– As mulheres têm de ter préstimo. Que farás sozinha no mundo?

– Não esqueça a minha mãe que uso enxada, e faço também o toque aos defuntos desde há muito, e não os distingo de homens ou mulheres no destino. Amortalhados também lhes não conheço cor, mas o padre diz que ninguém é branco e rosado como eu, e pergunta-me sempre se meu pai – que Deus tem – era assim tão branco e se a minha mãe andara apenas entre a aldeia do Brado e a da Lapa da Serra. E quando lhe digo que sim, ele sorri.

Infelizmente, ninguém nos pode valer. Fomos logo condenadas quando nasci.

Antes tivesse ido com o pai ou com as minhas irmãs. Neste mundo só se mastiga. Talvez porque a vida é assim: só se vê de um lado.

Bota cá mais lenha, minha mãe, eu seguro o carrego! Somos as duas sempre com frio, e eu não quero ir a banhos com farsolas! Melhor estar assim de alma viúva da vida.

As chaminés do pão fumegavam; recolhia-se o rebanho desirmanado; as galinhas regressavam à cerca. Tudo se acoitava que a noite era de má reputação.

Só as estrelas não perdiam a graça das virgindades, usavam blusas transparentes, cantavam noivados e reproduziam-se na perfeição num estado único de harmonia moral.

Teresa Bracinha Vieira

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