
No Éden, uma vez, era de noite e ainda assim a salvação dos náufragos se vazia com regularidade e leveza. A grande arte do entendimento era visível nestas noites iluminadas pela luz noturna da felicidade. As faias esbeltas e os frondosos ulmeiros do jardim deste local sabiam que dali as andorinhas nunca partiam, e o Éden, sereno de não-poderes, conservava-se inocente e romântico.
A ele chegaram durante o resto da noite boreal, muitos violentados, como se não fossem humanos, e, no entanto, eram seres viventes vindos dos subsolos suspensos na sobrevivência. De surpresos, perguntavam-se entre si, se deveriam aguardar um eclipse fatal ao que lhes estava a acontecer – por belo demais ser – ou, por bem conhecerem a sua própria condição, assim aceite, sem luta.
Pela manhã o Éden expôs a sua cartografia interior e nela se podiam ler todas as aparências, todas as seduções insinuadas, todas as chaves que se urdiam para a decifração, e, fio a fio, os seres desvendavam os segredos de um outro ser concreto.
Confundidos entre os destroços de uma esperança e um desejo de reerguer o mundo, voltou a adensar-se um voo estranho, um voo quieto, sem trégua nem termo, e os náufragos, de muito longe, então, sentiram chegar outro Éden, outro jardim, e nele, uma crença de eventual passagem para a teia do saber primeiro.
Teresa Bracinha Vieira
Dezembro 2017