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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Pedro Laín Entralgo © Biblioteca de Nueva Acrópolis


Num mundo ambíguo, perguntas e interpretações

Apesar de todas as diferenças e precisamente nelas, todos — homens e mulheres, brancos, pretos, peles vermelhas, amarelos, mulatos, altos, baixos, pequenos, ricos, pobres, esbeltos, feios, inteligentes, inadaptados, génios, analfabetos — vivemos todos no mesmo mundo. Precisamente a sua realidade não é transparente. O mundo é ambíguo: tem sentido e também parece sem sentido, há vida e há morte, dor e alegria, violência, ódio e também amor e generosidade, destruição e criatividade. Assim, a realidade mostra-se, mas ao mesmo tempo esconde-se. Desse desvelar-se e velar-se nascem inevitavelmente perguntas: a realidade, incluídos nós próprios, é inevitavelmente perguntável.

Ressalta, portanto, a contingência, mas, como escreveu Raimon Panikkar, assim: “tocamos (tangere) os nossos limites” e “o ilimitado toca-nos (cum-tangere) tangencialmente”. De pergunta em pergunta e de resposta em resposta, é inevitável a pergunta pelo Fundamento último e pelo Sentido último deste mundo comum na sua ambiguidade. Assim, tanto o crente como o ateu arrancam de perguntas humanas radicais a partir do mundo comum, e as suas respectivas respostas de fé ou descrença representam interpretações da realidade, mas nestes precisos termos, como escreveu o filósofo da religião Andrés Torres Queiruga: “não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a descrença aparecem aos respectivos sujeitos como o modo melhor de interpretar o mundo comum”. Deste modo, também no domínio da fé há uma “verificação”: se o crente dá a sua adesão à fé é porque comprova que a “hipótese religiosa” é a que melhor ilumina as questões últimas da vida e da morte, a realidade do mundo e da história; o agnóstico confessará que não acha razões suficientes para decidir-se; o ateu apoia-se na convicção de que têm mais peso as razões contra a existência de Deus.

Como se não cansava de repetir Pedro Laín Entralgo, só o penúltimo é certo, o último é e não pode não ser incerto. O crente, na sua interpretação da realidade mundana e humana, apoia-se numa Presença que não se mostra nem se vê directamente, mas que se encontra co-implicada em tudo o que se mostra e vê. Nessa Presença a que chama Deus, a realidade na sua totalidade revela-se-lhe plena de sentido.

Não há resposta definitiva constringente para o que é a realidade na sua ultimidade. É no próprio acto de fé que o crente experiencia o carácter razoável da sua adesão confiante livre, o que mostra o vínculo entre verdade e liberdade.

Por outro lado, se o que une os seres humanos é a pergunta ilimitada pelo Infinito, não há lugar para as guerras de religião — as religiões são inevitavelmente respostas finitas — nem para nenhuma forma de fundamentalismo — ninguém é senhor do Fundamento. Antes das religiões, há a humanidade, de tal modo que um critério hermenêutico decisivo da verdade de uma religião é, negativamente, não ser contra a humanidade do ser humano e, positivamente, contribuir para a sua realização. Uma religião contra o ser humano, humilhando-o, diminuindo-o, fazendo apelo à violência, ou é uma religião falsa ou os seus fiéis interpretam-na mal.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado 8 de Novembro 2025

Comentário sobre “CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  1. Bom dia Senhor Padre e Professor Anselmo Borges
    Na sequência das suas palavras: “Por outro lado, se o que une os seres humanos é a pergunta ilimitada pelo Infinito, não há lugar para as guerras de religião …Uma religião contra o ser humano, humilhando-o, diminuindo-o, fazendo apelo à violência, ou é uma religião falsa ou os seus fiéis interpretam-na mal.”
    Lembro que Friedrich Engels foi um dos primeiros a descrever que a tomada dos meios de produção pelos homens (antes, mulheres e homens eram equivalentes, embora complementares), levou ao capitalismo. A visão económica levou à origem do pai poderoso que exigiu as mudanças económicas inicialmente delineadas por Engels, ao que se seguiram as consequentes mudanças nas crenças religiosas.
    Tivemos pelo meio, a espectacular mensagem de Amor que nos trouxe Jesus. Mas, como diz Beatrice Bruteau, uma pioneira da inter-espiritualidade, Jesus tinha uma consciência “neo-feminina” que incluía conectividade, misericórdia, paixão e liberdade, levando a um novo relacionamento de uns com os outros/outras.
    E os seguidores de Jesus???
    É que se aceitamos a Santíssima Trindade, Deus não é uma Unidade, mas um conflito.
    Como sou livre, tal como Jesus e sua Mãe, afirmo que Jesus teve uma experiência amorosa com Maria Madalena (não estou a dizer que tenha sido física, mas teve-a).
    “ Seja qual for a interpretação erudita da frase “Deus é Amor”, as palavras confirmam a divindade como [complexio oppositorum] de C.G. Jung.
    Obrigada e desculpe a extensão do comentário.

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