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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Fiódor Dostoiévski


O fardo da dignidade da liberdade

Aparentemente, não há nada para o homem que ele tanto preze como a liberdade. Mas, tendo de optar entre a segurança — intelectual, espiritual, psicológica, social, económica, política, religiosa — e a liberdade, não se sabe quantos ficariam do lado desta e não daquela, do lado da liberdade e não da segurança.

Fiódor Dostoiévski disse-o de modo ácido e também sublime num texto em que também se critica com justiça a Igreja de Roma. Fá-lo em Os Irmãos Karamázov, no poema de Ivan com o nome “O Grande Inquisidor”. A história passa-se em Espanha, em Sevilha, nos tempos terríveis da Inquisição, precisamente no dia a seguir a um “magnificente auto-de-fé” em que foram queimados de uma assentada, na presença do rei, da corte, dos cardeais e das damas mais encantadoras da corte e da numerosa população de Sevilha, quase uma centena de hereges. Cristo “apareceu, devagarinho, sem querer dar nas vistas e… coisa estranha, toda a gente O reconhece.” Mas o cardeal inquisidor aponta o dedo e manda que os guardas O prendam. E é num calabouço do Santo Ofício que lhe diz que no dia seguinte O queima na fogueira como ao pior dos hereges. E a razão é que a liberdade de fé tinha sido para Cristo a coisa mais preciosa. Não foi Ele que disse tantas vezes: “Quero tornar-vos livres?”

Cristo, afinal, não percebeu que “o homem não tem preocupação mais torturante do que encontrar alguém em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva da sua liberdade.” “Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!”, diz-lhe o inquisidor. “Esqueceste-Te de que a tranquilidade e até a morte são mais queridas para o homem do que a escolha livre do bem e do mal? Não há nada mais sedutor para o homem do que a liberdade da sua consciência, mas também não há nada mais torturante.” Assim, ao longo de quinze séculos, os hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo, baseando-a em milagre, mistério e autoridade. Agora, todos sabem em que é que hão-de acreditar e o que é que hão-de fazer, sem terem de perguntar porquê nem de escolher. “E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes causava.”

Como única resposta o prisioneiro beijou-o, e o velho cardeal vai até à porta, abre-a e diz: “Vai-te embora e não voltes mais… não voltes… nunca, nunca!”

O homem angustia-se com a liberdade. Porque ser livre quer dizer ser senhor de si e dos seus actos e ter de escolher e ter de responder por si e pelo mundo e pelos outros. Ter de escolher é para o ser humano, que quer tudo e todos os caminhos, ter de escolher algo e um caminho só de cada vez e ter de renunciar a tantas outras possibilidades, sem poder ficar com tudo, na consciência disso. Ser livre quer dizer entrar na urgência de um projecto e poder falhar e, num tempo irreversível, que inexoravelmente caminha para a morte, nunca mais ter tempo para remediar, para refazer, para fazer outra coisa e um ser si mesmo outro: é tudo sempre pela primeira e última vez, sem ensaios…

A angústia da liberdade e da responsabilidade  e a busca falaz da segurança explicam a facilidade da entrega a poderes totalitários, a seitas cegas, a colonizadores de corpos e de almas, a vendedores de “verdades e certezas” tapadas e irracionais.

A liberdade é condição de possibilidade da ética. Mas até do ponto de vista das raízes etimológicas gregas — ethos com épsilon e ethos com eta, que significam, respectivamente, acção, costume, modo habitual de agir, e toca do animal, morada, casa — se diz que a questão ética é indissociável da pergunta pela nossa morada enquanto horizonte de sentido, pátria onde se quer habitar. Sim! Afinal, para onde queremos ir? Na presente situação de hecatombe político-moral num mundo enlouquecido, para onde vamos sem uma conversão ética?

Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e age no quadro de uma rede de instintos, o homem vem ao mundo praticamente desarmado de instintos e aberto a possibilidades sem conta e tendo de fazer-se a si mesmo no mundo com os outros. Pode escolher entre esta e aquela possibilidade, até tem a capacidade de não escolher, mas quem tenta escolher não escolher também escolhe. De qualquer modo, é capaz de erguer-se a si mesmo acima dos apetites, do simplesmente agradável ou útil e colocar-se no lugar do outro. Transcende os interesses particulares da natureza e enquanto ser racional dá a si mesmo de modo autónomo a lei moral universal que é a lei da liberdade. Kant formulou-a nestes termos: “Age segundo uma máxima que queiras ao mesmo tempo que se transforme em lei universal de acção”, ou então: “Trata a humanidade em ti e nos outros sempre como fim e nunca como simples meio.” As coisas são meios e, por isso, têm um preço. O ser humano é fim e, por isso, não tem preço, tem dignidade.

Sem capacidade moral e liberdade — a liberdade é a condição de possibilidade da moralidade e, consequentemente, da responsabilidade (responder pelo que se faz ou não e como se faz) —, o homem não seria digno de louvor nem estaria sujeito à censura, e não haveria distinção entre o bem e o mal. Como escreveu o filósofo Luc Ferry,  que foi Ministro da Educação da França, “um materialismo consequente deveria limitar-se, sempre, a uma ‘etologia’, sem nunca falar de moral a não ser como uma ilusão mais ou menos necessária, fazendo parte do real mas, sem embargo, enganadora”. Embora condicionado, só porque não é completamente subordinado nem guiado pela natureza é que o ser humano “pode cometer excessos, quer no mal (o ódio e a maldade) quer no bem (o amor e a generosidade)”.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia 

Sábado, 10 de Janeiro de 2026

Comentário sobre “CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  1. Todo ornamentado
    Já está o S. João
    No seu andor de flores
    Dará sentido à procissão
    Outros andores e ofertas
    De estilos muito variados
    Nos serões anteriores
    Foram enfeitados
    As ruas são verdes
    Cobertas de vegetação
    E nas varandas e janelas
    Ricas colchas lá estão
    Dar a volta à freguesia
    As filarmónicas lá vão
    E acompanham os andores
    Para a procissão
    E o carro do vigário
    Todo enlameado
    De tantos meninos
    E tantos velhinhos
    Trazer por caminhos
    De lama e apertados
    Pelos agrestes silvados
    No programado horário
    Os foguetes são atirados
    Mas o senhor proprietário
    Avança sobre o vigário
    E ordena todo empertigado:
    Os foguetes não podem
    Ser atirados
    Os senhores que bebem
    A minha água – não podem ser incomodados
    “ Sem foguetes
    não há festa
    vamos embora
    é o que nos resta”
    “Não! Não vão embora
    a festa vai continuar
    é uma festa religiosa
    um leigo não vai mandar”
    – Pois é –
    Jovem vigário de Cristo
    Tão autêntico servidor
    Agora vais dar o teu amor
    Ao povo de Timor
    Em vez de carro enlameado
    Tens um burro cansado
    E uma vela para te alumiar
    SPA,2023

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