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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


140. A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O POLITICAMENTE CORRETO

Se, no essencial, a liberdade de expressão se justifica para os que discordam de nós, nos escrutinam, incomodam e questionam, dado que só me interessa quando sou controverso, perseguido ou posso sê-lo, pela minha contundência ou sentido crítico, não se justificando quando concordam connosco ou dizem bem, uma vez que, quando assim é, não somos escrutinados, incomodados, questionados ou perseguidos, é porque é um foco de resistência ao poder, à normalização, ao politicamente e usualmente correto, uma segurança das minorias contra as maiorias, dos mais fracos contra os fortes, uma garantia de limites ao poder estabelecido.

Se o poder, por sua vez, tem como arma de defesa o politicamente e usualmente correto, o “status quo”, o pensar da maioria, coexistindo em democracia com o politicamente incorreto e a discordância via uso da liberdade de expressão, esta e o politicamente usualmente correto e o desusadamente incorreto colaboram e coexistem entre si, sendo duas faces da mesma moeda, escrutinando-se e limitando-se na imperfeição e numa exigência permanente pelo melhor.

Só que nem sempre o politicamente correto coincide com o pensar e opinião da maioria ou de quem tem o poder, dada a existência de minorias, tidas por superiormente iluminadas, que se têm como progressistas, de ideias e pensar da esfera do politicamente correto, onde só pode haver espaço e mentalidade para uma opinião, a alinhada como o seu discurso e pensamento mais “limpo”, querendo higienizar, censurar ou cancelar, fixando o tolerável e o intolerável porque, por exemplo, “leitores ou pessoas sensíveis”, ainda que à revelia da maioria e dos autores.     

Mesmo que não o assumam, a liberdade de expressão, na sua pluralidade, é mal vista, mas é bem-vinda quando em causa o pensamento politicamente correto que defendem, onde a mera discordância de alguém contra o seu pensar, mesmo que em minoria, é tida como ofensiva, no mínimo.   

Quão fácil é ser-se intolerante e ter vontade de acabar com o debate numa sociedade onde a liberdade de expressão tolera o politicamente correto e incorreto, ao invés de se    aí tolerada e vigente uma só via de pensar.   


26.05.23
Joaquim M. M. Patrício

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