auto_stories

Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

news

Subscrever por e-mail

Receberá apenas novas publicações - no máximo, um e-mail por dia.

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


150. INTERROGAÇÕES CULTURAIS

Se tomarmos como referência um modelo antropológico, a cultura não é um bem de primeira necessidade, por confronto com o ar que respiramos, a água, a alimentação, o vestuário, a saúde, tidos como bens primários e de sobrevivência, pelo que, nesta perspetiva, podemos viver sem ópera, cinema, teatro, bailado, literatura, as letras e as artes em geral, embora haja a tradição de ser-se tanto mais civilizado quanto mais culto, de que não há civilização sem cultura, sob pena de vivermos em barbárie. 

Se se aceita, em termos antropológicos puros, que se pode sobreviver sem a cultura erudita, também podemos permanecer vivos, pelo mesmo critério, sem escrita e a palavra falada, sem educação, sem medicina, sem justiça, por exemplo, embora não possamos ter educação e saúde sem o saber associado ao culto do estudo, da investigação, da criatividade, da invenção, o que implica não excluir a escrita, a fala, a linguagem especializada, a ciência e a técnica, incluindo as humanidades e as artes.  

É inexequível positivar a realidade que apelidamos de cultura, dada a sua adaptabilidade, flexibilidade e elasticidade, sendo um universo escrutinado e questionado em permanência, englobando tudo o que a natureza não produz e lhe é adicionado pela criação e espírito humano, desde uma definição mínima e seu sentido restrito, a um significado intermédio e uma interpretação mais ampla, numa desconstrução e refazer permanente, negando determinismos e purismos.

Nesta sequência, é redutor não ter a cultura como um bem de primeira necessidade, por maioria de razão se pensarmos que tudo é passageiro e só fica a escrita, o património histórico, a fotografia, o audiovisual, a digitalização, sem os quais não há “eternidade”, mesmo que os seus autores, em vida, não tenham tido o poder de mandar, mas sim o de imortalizar do esquecimento histórias e biografias de poderosos que não sobreviveram à lei da morte, definindo a Cultura a História e a memória coletiva duma civilização  post mortem e dos que nela foram seus intervenientes.       


15.09.23
Joaquim M. M. Patrício

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *