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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS


177. A ESPIRITUALIDADE E O SUBLIME

Pode haver espiritualidade sem religiosidade e o inverso. 

Há religiosidade sem espiritualidade quando a religião é um mero ritual de solenidades, costumes, formalidades e tradições.   

A espiritualidade é o estado poético do espírito.

O espírito num estado poético sublime transcende a realidade, quando ficamos de tal modo tocados que não temos palavras para o exprimir, ou soltamos finitas exclamações admirativas da nossa pequenez e incompreensão perante o inexplicável ou o infinito. 

O valor das paisagens não é decidido em função de critérios estéticos formais relacionados com a sua simples beleza, proporcionalidade física e cromática, interesses económicos ou utilitários, mas pelo potencial que os seus lugares e o seu conjunto tiverem em elevar o espírito a um patamar do sublime. O mesmo quando confrontados com uma paisagem esmagadora e não temos palavras para exprimir o que sentimos, estabelecendo-se uma relação espiritual com o que estamos a observar.   

Thomas Gray, poeta, quando fez uma travessia pelos Alpes, em demanda do sublime, escreveu: “Ao longo da nossa breve viagem até à Grande Chartreuse, não me lembro de ter dado mais de dez passos sem soltar uma exclamação diante do ilimitado”.   

O sublime é um desafio à vontade humana, confronta-nos com uma força maior que nos ameaça, interpela e nos questiona, pode provocar medo, ira e ressentimento, mas também admiração e respeito pelo que é poderoso e nos transcende, podendo aliar-se a um desejo de adoração.       

Numa viagem à Argentina, não esqueço as emoções sentidas com a visão dos glaciares, em especial numa viagem de barco em redor de um deles, que de tão avassalador, desafiante, intimidante, imponente e sublime fez soltar, espontaneamente, a alguns viajantes, frases como: “Alguém duvida, agora, que Deus existe!?”, “Eis uma prova da nossa pequenez e insignificância perante o que é mais poderoso que nós!”.   

Podemos transferir a espiritualidade para múltiplas experiências que temos na vida. É comum a espiritualidade laica, como o exemplifica o “Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Caim”, de José Saramago. Em experiências e relatos de viajantes como Thomas Gray, Edmund Burke, Wodsworth, Rimbaud, Artaud e René Daumal.  

Patti Smith, em recente estadia entre nós, em Lisboa, após referir “Que há algo de belo em ter uma missão”, que a ambição, a todo o custo, de poder ocupar o trono, não vale nada perante a brevidade da nossa existência, reconhece que procurou o sentido da vida através do estado poético da poesia e sua espiritualidade, fazendo dele uma forma de perscrutar o destino do ser humano e a sua possibilidade de transcendência.  

Quer nos entreguemos ou questionemos, há sempre uma procura, por meios diferentes, de alcançarmos uma “meta-física”, uma espiritualidade que pode ser uma espécie de estado poético do nada que é a essência de tudo.


31.05.24
Joaquim M. M. Patrício

2 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  1. O Sublime não ameaça, ama. E nós precisamos desse Amor, precisamos inclusivamente de nos alimentarmos desse Amor. Se porventura, alguém sente ameaça, não terá tanto a ver com o Sublime, mas com outras forças menos sublimes.
    “Uma espiritualidade que pode ser uma espécie de estado poético do nada…” Para mergulhar no nada, é preciso sofrimento prévio. Resta saber se as pessoas que se limitam a entregar-se, vão mesmo até ao “nada que é a essência de tudo “.
    Muitas pessoas podem escrever poemas, mas eles virão mesmo do fundo da sua alma, do fundo da sua natureza?

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