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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

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218. UM COMPLEXO DE EUS

 

Cada um de nós, como indivíduo ou pessoa, é um complexo de eus.

Pode haver uma versão idealizada de nós mesmos, que promovemos e queremos que se veja, e outra menos desejável que, no fundo, ocultamos e mantemos escondida. Ou, por exemplo, uma versão que somos obrigados a ter, em termos profissionais ou por dever de ofício. Pode haver duas ou mais versões distintas da mesma pessoa.

Não era incomum, na época inaugural e áurea dos retratos, quando em andamento ou finda a sua feitura, o retratado, após o analisar, pedir uma versão mais elogiosa e lisonjeira de si mesmo, acabando o pintor por pintar outra versão por cima da inicial, o que é conhecido por pentimento. Quando aplicado a manuscritos, fala-se em palimpsesto. Há quem defenda que parte de quem somos está sempre perdida, quem replique que é uma escolha, quem triplique que pode ser um dever, que todos fazemos sacrifícios e expurgamos algo de quem somos e, por mais que representemos um ideal, somos sempre seres humanos comuns.

E há os heterónimos literários, os perfis e retratos imaginários de amizades epistolares e virtuais, em que quem escreve, leia ou veja, à distância, é visto num plano espiritual, imaginário, que cada um fantasiou do outro. A haver contacto pessoal, um dia, que não corresponda aos imaginários espirituais da personalidade idealizada, há um choque, dado haver pessoas que virtualmente e ao escrever são encantadoras, reforçando a aproximação, enquanto outras são aborrecíveis e desagradáveis no falar, esfriando e morrendo o relacionamento.

Li, algures, que um alto privilegiado adorava estar só e que o seu maior amigo, Beltrano, nunca o vira, pelo que, inquirido do porquê de tão estranha omissão, respondeu ter medo, apesar de inúmeras vezes ter sido convidado.
– Medo de quê? perguntaram-lhe.
– Medo de ter uma deceção, que seria mais uma, respondeu, preferindo continuar a idealizá-lo como um ser superior.

Nem sempre, na verdade, o contacto presencial corresponde àquilo que idealizámos espiritualmente, virtualmente e vice-versa.

Nós, seres humanos, somos uma complexidade de eus que importa compreender.

 

20.06.25
Joaquim M. M. Patrício

2 comentários sobre “CRÓNICAS PLURICULTURAIS

    1. Esclarece-se, relativamente ao texto, que onde se escreveu “pentismo” deveria escrever-se “pentimento”, o que se corrige, penitenciando-nos pelo lapso.

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