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Sobre o blogue

O blogue "Raiz & Utopia" é espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Retomamos o projeto da revista “Raiz e Utopia” fundada por António José Saraiva, Carlos Medeiros e José Baptista em 1977, cuja direção foi assumida por Helena Vaz da Silva, tornando-se uma referência na cultura portuguesa, pelo carácter inovador e inconformista, reunindo colaboradores como Edgar Morin, Eduardo Lourenço, António Alçada Baptista e Alberto Vaz da Silva.

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


232. O DESEJO E A SUA AUSÊNCIA

Na medida em que o desejo também nos puxa para o desconhecido, a curiosidade, os mistérios da vida, nos transforma e tira da inércia, do ócio, do tédio, programando o que poderá ou poderia ser, acaba por ser, de igual modo, uma manifestação de liberdade de expressão que se quer livre.     

Se não reconhecido fica censurado, se reprimido torna-se silencioso, desembocando a ausência (de desejo), nesse contexto, em angústias, silêncios e numa previsível “infalibilidade” de quem reprime e não se assume como falível. 

Contentando-se com o que é repudiado e o que poderia ser, a ausência de desejo apela, num certo enquadramento, à segurança, ao mito da normalidade, ao estabelecido e não questionado, ao não querer correr riscos, à arrogância de querer ter sempre resposta conhecida para o desconhecido.     

O reconhecimento da nossa própria falibilidade, refutando a infalibilidade, faz parte do que faz alguém ter um desejo sério, fazendo progredir o conhecimento humano.   

O desejo, como a liberdade, é inerentemente antiautoritário, autocorrigindo-se, ao invés da sua omissão.       

Mas também é ambíguo, luz ou sombra, solar ou escuridão, de bom ou mau gosto, sendo o seu significado determinado pelo seu contexto de apresentação ou de expressão. Desejar é viver em estado de incerteza e de inquietação, é ser liberal, estar aberto à experimentação, à tolerância, à dúvida, à mudança, à refutação, ao erro, à diversidade, em conjugação com o facto de o ser humano ser, por natureza, incompleto ou imperfeito.   

Há desejos que nos libertam e os que nos amarram, e os que reconhecem o mistério da vida a que não cede quem ousa pensar (ingloriamente) que tem resposta para tudo.      


31.10.25
Joaquim M. M. Patrício

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